MININGITE

abril 4, 2012

Após meu 19º carreto, rumo à minha vigésima casa, continuo com aquele constrangimento de um cara pegar todas aquelas caixas, na maior intimidade, coisas que têm um valor sentimental incrível, e simplesmente jogam atrás do caminhão.

Dessa vez foi um velho, solteiro e sem filhos, com mais de 65 anos e a primeira coisa que ele falou quando entrei na boléia foi:

-       Estou trabalhando hoje de coração partido, porque terça morreu meu irmão e na quarta, minha mãe.

-       De que?

-       Miningite da mais pior. E minha mãe não aguentou enterrar o filho e morreu. Diz que mãe tem filho pra enterrar ela depois, né?

Fiquei em silêncio e pensei. Porra. Que otário que eu sou. Seguimos viagem, carregamos todas aquelas caixas na maior intimidade e até tive vontade de jogá-las fora.

Depois de subir dois andares com minha intimidade, o velho falou:

-       Dizem que o caso dele criou um foco de miningite e que todo mundo pode estar infectado.

Matheus Tapioca

carinha_farinha
Nem toda segunda uma nova crônica.

TEMPERO DA VIDA

dezembro 12, 2011

Quero te saborear com os cinco sentidos. Passar a língua pelo seu corpo. Experimentando seu sal a gosto.

Quero te saborear com os cinco sentidos. Mexer o seu quadril sem parar. Para a vida não desandar.

Quero te saborear com os cinco sentidos. Observar seu ponto de ebulição. Você revirando os olhos e eu encarando os seus.

Quero te saborear com os cinco sentidos. Fechar os olhos e sentir seu cheiro tomar o quarto, a casa, a vizinhança, o dia.

Quero te saborear com os cinco sentidos. Ouvir seus gemidos, gritos e você pedindo mais.

Quero te saborear com os cinco sentidos. Para a vida ter sempre gostinho de quero mais.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

 

SEGUNDO ENCONTRO

dezembro 6, 2011

Eu odeio segundo encontro. Ou melhor, odeio e adoro. O que sinto agora é que eu bem que podia não ter ligado. Por que eu liguei? Por que eu marquei? Se eu não tivesse ligado, tudo ia ser normal. Ela ia achar que eu não gostei, que sou apenas um cara como todos os outros, que depois que transa não liga mais. E a vida ia continuar.

Será que ela vai achar que sou daqueles grudentos? Daqueles que sempre ligam no dia seguinte? Mas eu liguei. Gostei de ficar com ela. E ainda falei assim: “Quero te encontrar de novo porque sábado foi massa”. Será que ela gostou da palavra “massa”? Preciso perder esse sotaque baiano.

Estou com dor de barriga. Seja homem, seu moleque! Não consigo trabalhar. Já tomei 30 copos d’água. Passei o dia inteiro querendo ligar. Mas, agora que eu liguei e ela aceitou, eu fico nesse estado ridículo de pânico? Sou louco, eu sei. Era para eu estar feliz. Mas estou nervoso como a porra.

Vou tomar um café na casa dela. Eu odeio café. Levo um vinho? Levo flores? Levo uma cesta de queijos e vinhos? Calma. Vou colocar aquela cueca preta da Clavin Klein. Vou botar aquela camiseta da Cavalera que eu comprei. Eu não vou botar camisa de botão. Tenho que mostrar personalidade. Mulher gosta de homem com personalidade.

Será que deixei na cara que estou muito a fim? Porra, eu falei que achei “massa”. Pegou mal, hein? Podia ter falado ótimo, legal, bacana (bacana, não. É muito carioca). Será que as mulheres percebem as palavras que a gente usa? Não posso mostrar que tô muito a fim. Senão ela joga fora. Ela tem que achar que tô querendo apenas mais uns beijos.

Passaram cinco minutos. Acho que agora fiquei animado. Me lembrei da bunda dela. Que bunda. Aquela marquinha de biquíni. Ela não deve ser dada, apesar de termos transado na primeira noite. Nunca é tão bom no primeiro encontro, ela tava um pouco travada. Se não rolar sexo, vou falar “Também quero só ficar dando beijo na boca.“(como a gente mente nessas horas…).

Tomara que ela esteja de saia. Adoro mulher de saia longa. Daquelas que a gente fica imaginando o que está por baixo. Não consigo parar de pensar naquela bunda. Que bunda. Será que ela vai querer transar? Acho que sim. Ela não me chamaria para casa dela se não quisesse.

Não importa. Preciso ficar calmo. Como será que eu cumprimento? Com selinho? Melhor não. Hoje eu testo para ver se ela é quente. Será que durmo na casa dela? Se ela mandar eu ir embora é porque ela só quer sexo.

Será que vou parecer cafona se levar flores? Que se dane. Levo uma e digo que roubei. Isso é pra lá de cafona. Elas adoram esse tipo de cafonice. Não, vou levar um Veuve Clicquot.

Pode ser que a gente só saia essas vezes e pronto. Mas também pode ser que a gente se apegue e tenha 500 encontros. Pode ser a mulher da minha vida, a que terei dois filhos, uma casa na praia e comemorarei todo Dia dos Namorados.

Eu tenho medo. E preciso ir embora do trabalho (não fiz nada). Que bom sentir o coração na ativa novamente.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
*Versão masculina de crônica homônima de Nina Lemos
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

COMIDA

novembro 25, 2011

Você já reparou que seus amigos deprimidos só te convidam para fazer programas gastronômicos? É sério! A pessoa só te chama para comer.

Nunca chamam para tomar um chope, uma boite, uma festinha, nem para a praia eles te chamam. E o que é pior: recusam todos os convites que você faz.

Se você chama para a praia, se acha gorda. Para a balada, está feio. Um chope, não está no pique. Aí você passa dois meses sem ver a pessoa, se ela não se matou de comer antes.

Dividi um quarto com um amigo que me ensinou uma coisa que nunca mais esqueci: você acha que o teto do seu quarto vai cair e uma pessoa linda vai cair em cima da sua cama e vocês vão casar?

É conhecendo gente nova que você experimenta e se gostar, casa. Aquelas festas que você não conhece ninguém, vá sozinha. Aquela micareta fora de época, faça competição de beijos.

Seja descarada, paquere, se dê ao desfrute. Curta sua depressão queimando caloria, dançando, trepando, mas não comendo um X-Tudo no trailer mais perto da sua casa.

Será que é por isso que casais sempre oferecem jantares?
Matheus Tapioca

carinha_farinha
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COMPLEXO DE COLONIZADO

novembro 21, 2011

Por que no Brasil a gente tem que falar a língua estrangeira para se comunicar com um gringo? Complexo de Colonizado. Complexo que vem do portugês que ensinou ao negro e ao índio que deveriam falar português, acreditar em Cristo ou morrer fuzilado. O que acabou acontecendo com a nação indígena.

Você já comprou alguma coisa falando português em Paris? No Iraque? Nem em Miami! Chineses não falam inglês, mesmo sabendo. Franceses menos ainda. Sabe por que? Porque eles não têm Complexo de Colonizado.

Por que o baiano sorri, pega no aeroporto e mostra a casa inteira para todo turista? Por que na Bahia até vendedor de amendoim cozido sabe falar inglês? Complexo de Colonizado. Acha que só vai vender se falar “gringuês”.

Por que a gente fala inglês, espanhol e francês para o estrangeiro? Ele fala português? Não. A gente diz que é para “praticar”, mas é Complexo de Colonizado.

A Diplomacia Internacional orienta a todo Presidente de um País falar a sua língua natal. Menos FHC, que peguntou na França em qual língua a platéia gostaria de ouvir seu discurso. Não obtendo resposta, deciciu falar em francês. Por que? Pedância, arrogância e Complexo de Colonizado.

A minha primeira língua é o inglês e eu sempre finjo não entender o que o estrangeiro fala. E ele, na sua pedância, me acha ignorante. Inclusive os brasileiros. Por que? Complexo de Colonizado.

A língua portuguesa é linda. Só ela é capaz de entender perfeitamente Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Clarice Lispector e Caetano Veloso. E só Saramago ganhou o prêmio Nobel. Tsc, tsc, tsc…
Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
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GENTILEZA

novembro 14, 2011

Não dizem que se você quiser saber quantos amigos tem, faça uma festa. E se quiser saber quantos são verdadeiros, fique doente? Pois eu fiz uma festa que ninguém apareceu e já fiquei internado sozinho.

Havia três dias, a febre de quarenta graus não baixava e a amigdalite estava cada vez pior. Tomei coragem e fui de táxi sozinho para o pronto atendimento de um hospital.

Meu plano de saúde oferecia um quarto só pra mim. Se eu soubesse que ia ficar num quarto sem ninguém, era melhor ter direito apenas a enfermaria. Assim, dava pra conversar com os outros doentes e economizava uma grana com o plano.

Deram-me alta e uma injeção “fela da puta” que me deixou todo empolado. Tive que ir sozinho comprar um antialérgico. Fui com a roupa de três dias de febre numa drogaria a três quadras de casa. Como já era mais de meia-noite, quando entrei com aquele traje na farmácia, todos os clientes saíram sem comprar nada, achando que era um assalto.

Voltei andando naquele estado de vida latente, ou morte aparente, quando fui abordado por um marginal, mais mal vestido que eu, que pediu todo meu dinheiro. Vendo minha cara desolada, ele me deu três reais (do meu dinheiro) e disse: “Pra você voltar de ônibus!”

Matheus Tapioca

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Matheus Tapioca

HALLOWEEN

novembro 7, 2011

Como eu vim do Nordeste, aquele lugar de cabeça chata, de gente analfabeta, que é o atraso do Brasil, meu Halloween era o Saci Pererê, a Mula sem Cabeça, a Caipora, cada lenda tinha uma história e um fundamento. E lá, não se chama Halloween.

Mas aqui, no Sudeste, que é o avanço do Brasil, onde as pessoas têm escola, votam direito, param na faixa de pedestre, pegam fila, tomam banho, usam Channel, têm carro blindado, eles chamam de Halloween.

A diferença é que aqui as pessoas se fantasiam de zumbis, açougueiros, cadáveres, bruxas, serial killers, múmias, dráculas, feridos, acidentados, fudidos. Mortos-vivos. Por que será?

Doçuras ou travessuras é o caralho! Existe Saci no Halloween? E a Cuca? Abóbora no Nordeste tem para comer, não para desperdiçar fazendo bruxa.

No Halloween do Nordeste, ninguém se fantasia de Saci Pererê, nem de Mula sem Cabeça, nem da Cuca. Porque esses personagens maus só existem no mundo da fantasia. Pois a realidade é muito mais assustadora.

Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
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MEIO GAY

outubro 31, 2011

Todos os meus amigos sempre me acharam meio gay, inclusive eu. E hoje, pela primeira vez, um amigo me perguntou:

- Qual parte você é gay? A de cima ou a de baixo?
- A de cima!
- E a de baixo?
- Homofóbico!

Respondi de bate pronto e percebi que nunca tinha pensado nisso. E achei genial. Ser gay na parte de cima é:

- Chorar em final de comédia-romântica;
- Adorar os amigos gays;
- Achar filme europeu melhor que americano;
- Amar Caetano, Gil, Gal e Bethânia;
- Sua amiga achar você sapatão;
- Achar Freddie Mercury o máximo;
- Ficar enjoado em barco;
- Somatizar os problemas;
- Ser carinhoso com amigos homens;
- Ser mais româtico do que mulher.

Ser homofóbico na parte de baixo é:

- Não aceitar fio terra;
- Só ter saídas, nunca entradas;
- Pensar com a cabeça de baixo;
- Chutar canela no futebol da galera;
- Não cortar as unhas do pé;
- Não tomar sol de costas em cadeira de praia;
- Nunca subir escada com a ponta dos pés;
- Dormir de valete, quando divide o colchão com outro homem;
- Não ficar nu na frente de gay;
- Ter tesão em mulher acima de todas as coisas.

Pois eu sou assim. Metade macho, metade gay.
Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
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JACUZZI

outubro 24, 2011

Depois de trabalhar o fim de semana inteiro, me dei um presente: gastei catorze reais em espuma e sais minerais para tomar um banho de banheira.

Todo mundo merece uma Jacuzzi com hidromassagem. Um lugar quente, sem ninguém para incomodar, a espuma, o iPod no ouvido, uma cerveja e só.

Acho que é a sensação mais próxima com o útero de nossas mães. Mas a banheira é melhor, porque dá pra fazer “ózadia” e tomar uns bons drink.

Não tenho banheira em casa. Usei a banheira de um amigo. Passei álcool, flambei e esterilizei.

Apesar de ser do signo de terra, ficar dentro d’água pra mim é quase um prazer sexual.

Passei duas horas de olhos fechados, ouvindo apenas as bolhas da espuma estourando.

Plic! Ploc! Plac! Paz!

Eu quero uma Bolsa Jacuzzi de Dilmão. Porque hoje me senti um bebê, saindo para um lugar frio, hostil, em plena segunda-feira.
Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
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LADISLAU. O TARADO DO TELEJORNAL.

outubro 13, 2011

Ladislau era tarado numa apresentadora de telejornal. Sabia de cor o horário de todos e qual jornalista apresentava.

Acordava de bom humor quando Renata Vasconcellos dizia “Bom dia Brasil!”; almoçava no chato Jornal Hoje com Sandra Annenberg.

Ladislau fazia questão de jantar com a baiana Ticiana Villas Boas e não dormia sem o “Boa Noite!” de Ana Paula Padrão.

Até as bobagens que Renata Fan fala sobre futebol na Band, ele via encantado. Menos quando falava mal do seu time.

Um dia um amigo disse a Ladislau que havia um telejornal em que as apresentadoras tiravam a roupa enquanto davam as notícias. Ladislau o assistiu e foi brochante.

Sua imaginação era muito mais excitante. É justamente naquela seriedade delas no telejornal que ele fantasiava como seria entre quatro paredes.

Uma apresentadora de TV na sociedade e uma “nigrinha-discarada” na cama.

Elas podiam nem ser essas Coca-Cola toda, mas a tara de Ladislau fazia todas elas serem as melhores na segunda parte.

Ladislau tinha pesadelos terríveis quando ia dormir ouvindo a despedida de William Waack, que tem cara de fantasma. Antes Christiane Pelajo, de cabelo preso, é claro.

E em segredo, Ladislau acreditava que todo “Bom Dia”, “Boa Tarde “ e “Boa Noite” eram todos para ele.
Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
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