ENCANAMENTO

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Chegou do trabalho, ligou a televisão para ouvir vozes que não as suas – narrava-se um jogo de futebol -, foi ao banheiro, pegou a navalha, cortou os pulsos e se olhou no espelho pela última vez, deu um sorriso e baixou os olhos, fixando-os nos cortes.

Lembrou-se dos pais, de Maria e passou na sua frente o filme dos momentos que não viveu ao lado dela. Sentiu frio, esqueceu-se da pia entupida, o sangue já estava chegando à borda, entrou em pânico, tentou desentupir, arrependeu-se do que fez.

Desmaiou em cima daquele sangue amargo, sem vida e desesperado pra fugir daquele corpo amargo, sem vida e desesperado que o prendia.

A campanhia toca, ele vai atender. Era seu vizinho querendo assistir ao jogo. No dia seguinte, foi ao trabalho lembrando-se que deveria desentupir a pia.

Matheus Tapioca

 

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica do cotidiano.

Matheus Tapioca

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4 Respostas to “ENCANAMENTO”

  1. Ana Cristina Says:

    :o

    Ai que aflição ficar imaginando a cena !!!

    Mas valeu, gostei :D

    (como sempre :) )

  2. jorge jr. Says:

    esses seus textos curtos me lembram os do thomas bernhard em “o imitador de vozes”. rápidos e “caceteiros”, em bom baianês.

  3. carina Says:

    Nada como o tempo… nem que sejam 90 min de um jogo de futebol…

    adorei!

  4. andreia Says:

    Sangue amargo e espesso!
    AP

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