O ATIRADOR DE FACAS

outubro 21, 2016

Não entendo como algumas pessoas conseguem entrar na sua vida, viver coisas importantes ao seu lado, momentos inesquecíveis e, de repente, sair dela como num passe de mágica. Como quem desliga um interruptor.

Troca de linha telefônica, cancela a conta do e-mail, muda de endereço, de país, desaparece. Se dependesse de mim, o amor nunca se transformaria em “bom dia”.

Sempre achei que pé na bunda é sofrido para quem dá e pra quem recebe. Mas não acho que isso justifica deixar tudo que você viveu pra trás. Ou fingir que nunca existiu.

Foi com as suas ex-namoradas que você errou e não repete os mesmos erros com outra pessoa. Você entende que certas coisas não se dizem e outras que não podem deixar de ser ditas.

Você aprendeu a lidar com a TPM, como fazer para ela se sentir amada, protegida, segura e até onde sente mais prazer. Se hoje você é um namorado melhor, deve tudo às suas ex-namoradas.

Se acabou o namoro, por que tem que acabar toda a cumplicidade, sintonia, ligação, coisas em comum? Coisas que você não encontra em todo lugar, nem em todas as pessoas.

Outro dia vi um filme francês em que há o seguinte diálogo entre o casal que estava se separando. Ela pergunta pra ele:
– Nos beijamos? Nos despedimos?
Responde ele, resignado:
– Nos esquecemos.

Não consigo pensar, nem sentir desse jeito. Para mim, todas as pessoas com quem me envolvi são para sempre. Porque hoje, tenho certeza que sou uma pessoa melhor justamente por causa delas.

Matheus Tapioca

carinha_farinhaIlustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

MEIO GAY

setembro 8, 2016

Todos os meus amigos sempre me acharam meio gay, inclusive eu. E hoje, pela primeira vez, um amigo me perguntou:

– Qual parte você é gay? A de cima ou a de baixo?
– A de cima!
– E a de baixo?
– Homofóbico!

Respondi de bate pronto e percebi que nunca tinha pensado nisso. E achei genial. Ser gay na parte de cima é:

– Chorar em final de comédia-romântica;
– Adorar os amigos gays;
– Achar filme europeu melhor que americano;
– Amar Caetano, Gil, Gal e Bethânia;
– Chorar com música de Chico;
– Sua amiga achar você sapatão;
– Achar Freddie Mercury o máximo;
– Ficar enjoado em barco;
– Somatizar os problemas;
– Ser carinhoso com amigos homens;
– Ser mais româtico do que mulher.

Ser homofóbico na parte de baixo é:

– Não aceitar fio terra;
– Não colocar a pontinha dos pés pra ver se piscina está fria;
– Só ter saídas, nunca entradas;
– Pensar com a cabeça de baixo;
– Chutar canela no futebol da galera;
– Não cortar as unhas dos pés;
– Não tomar sol de costas em cadeira de praia;
– Nunca subir escada com a ponta dos pés;
– Dormir de valete, quando divide o colchão com outro homem;
– Não ficar nu na frente de gay;
– Nunca ficar parado com os pés em posição de balé;
– Não dobrar as pernas como mulher;
– Dar bicuda em dividida de bola na pequena área;
– Ter tesão em mulher acima de todas as coisas.

Pois eu sou assim. Metade macho, metade gay.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus

SOCORRO. ESTOU VIRANDO PAULISTANO.

setembro 1, 2016

inferno2

Já me acostumei à poluição e o ar puro me deixa anestesiado. Não olho mais no olho, não toco nas pessoas quando falo e adquiri certa resistência aos cariocas.

A mutação começou quando raspei a cabeça e coloquei um piercing na orelha. Inclui no meu vocabulário as expressões ‘Nooossa!’, ‘trampo’, ‘trocar idéia’, mas não falo ‘mano’.

Não como pizza com ketchup. Vou a lugares esdrúxulos como ‘Inferno’, ‘Carniceria’, ‘Drosóphila’, ‘Sarajevo’. Freqüento exposições, shows, festinhas, jantares, fondues, lareiras e afins.

Perdi minha mísera marca de sunga. Não lembro a última vez que fui à praia. Adoro o outono e desconhecia a modalidade ‘sol com frio’. Também aprendi a nunca mais tomar uma chuva de granizo.

Faço de tudo para não ficar na cidade no feriado. Já fiz uma viagem de oito horas que, sem trânsito, não levaria mais de três.

Descobri, em recente pesquisa, que cada habitante da Capital paulista está, no máximo, a 300 metros de distância de uma parede, um muro. Não é à toa que sou fã dos Gêmeos e dos projetos de Niemeyer no Parque do Ibirapuera.

Virei um workaholic. Passo mais de cinqüenta horas por semana dentro de um escritório branco, com persianas brancas, num ambiente climatizado, em frente a um computador, feito um rato de laboratório.

Uso roupas Cavalera, tênis Puma, escuto iPod, passeio pela Oscar Freire, admiro um punk, tive um retrovisor estourado por um motoboy. Já fui ao Ó do Borogodó ver um japonês (isso mesmo. Um japonês) tocar cavaquinho, numa banda de chorinho.

Fiz compras no Stand Center, na Santa Efigênia, mas nunca na Daslu. Me acostumei com crianças malabaristas, mágicas e que cospem fogo no sinal, sendo rejeitadas pelos donos de uma Ferrari.

E acabo de me dar conta que quando eu tiver um filho ele será paulistano. Vai falar ‘Quer que eu faço?’, ‘sussa’, ‘colocar a mesa de assim’, ‘parada nervosa’ e muito, muito ‘tipo assim’. Vai puxar o erre. Não usará plural. E o pior: será torcedor do Corinthians.

 

 

carinha_farinha
Matheus Tapioca

MAMÃE GANSA

agosto 24, 2016

mamae-ganso

Hoje eu vi um menino de rua folheando e admirando os desenhos de um livro infantil chamado “A Mamãe Gansa”, na entrada de um sebo. Fiquei ao lado dele e peguei outro livro para observar o menino discretamente. Descobri que sabia ler.

Ele usava calça jeans, tênis, uma camisa de moletom verde, meio suja, descuidada, e levava um isopor nas costas. O que fez aquela criança pegar aquele livro? A vida dele devia ser tão vazia de fantasia.

Tinha seus oito anos mal alimentados, ainda trabalhando, às nove horas da noite, parado em frente à livraria. A história daquela criança passou pelos meus olhos como num livro.

De repente, o menino fecha o livro e sai andando. Entrei na livraria, peguei “A Mamãe Gansa” e “O Mundo dos Bichos”, paguei e fui atrás do menino. Encontrei-o na esquina, em frente ao MacDonald’s, e entreguei os livros. Falei pra ele: “Um presente para você”.

Ele achou estranho. Olhou para dentro do saco, viu os livros, olhou para mim e não agradeceu. Acho que ele preferiria ganhar um dinheiro. Olhou para mim e disse: “Me dá um sorvete?”. Entramos na lanchonete e comprei uma casquinha.

Comecei a entrar numa paranóia de que o menino poderia chegar em casa com os livros, a mãe falaria que ele estava gastando o dinheiro com bobagem, pegaria o livro, rasgaria e jogaria fora.

Será que ele tinha mãe? Ele se interessou pela história da “Mamãe Gansa” justamente porque não tinha? Fiquei com medo, mas pensei que ele leria, estudaria, se tornaria um grande profissional e, quem sabe, ficaria rico.

Talvez ele estivesse procurando esperança. Esperança de tudo dar certo para ele e os irmãos, como os filhotes da gansa. Que ele não precisasse mais trabalhar e só empinar pipa, jogar bola, gude e brincar de Salada de Frutas com as meninas do bairro.

Perguntei seu nome: Serginho. Puxei assunto até chegar ao momento em que a vida mostra que tem um pouco de conto de fadas:

– O que você vende?

Ele, sem jeito, respondeu:

– Tapioca.

Sorri e ele, sem entender, foi embora tomando o soverte. E no meu conto de fadas, o moleque chegou em casa, leu os livros até pegar no sono e sonhou.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração:
Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca

Matheus Tapioca

MANDA NUDES

agosto 17, 2016

nudes

Quem nunca? É ótimo provocar e é uma delícia receber. Com o advento da tecnologia, o corpo está ao alcance do celular.

É uma espiadinha, um arrepio, uma fresta da beleza e da sensualidade numa noite solitária, numa tarde entediante ou num delicioso “bom dia”.

Acho ridículo homem que espalha na rede os nudes das mulheres. Não tenho essa falta de respeito ou carácter. Muito pelo contrário. Não quero dividir com ninguém, quero essa foto todinha só pra mim.

Você deixa de ser especial e até ganha processo na justiça, só porque quer se exibir para seus amigos. Sem descobrir que os melhores comem “queto”, o que deixa você mais respeitado por eles e, principalmente, por elas.

Mil pecados passam pela cabeça, não consegue mais trabalhar, nem dormir, só esperando a próxima. Qual será a parte do corpo? A produção, a pose, caras, bocas, silhuetas que estão na palma da sua mão, clamando: manda nudes!

carinha_farinhaMatheus Tapioca
Ilustração: Theo Siqueira

 

G-O-S-T-O-S-A!

agosto 10, 2016


Mulher gostosa não é só aquela que se acaba na academia. Também é. Mas para mim, mulher gostosa é aquela que tem o papo gostoso, uma cabeça gostosa, um sorriso gostoso, um carinho gostoso, uma companhia gostosa e um sexo gostoso.

Não adianta puxar vinte quilos de supino se não souber rebolar. Não adianta saber rebolar se não souber conversar. Mulher gostosa é para saborear o dia e a noite inteiros. É perspicaz, inteligente e safada. Nem precisa ser bonita, mas se for, melhor ainda.

Na infância é uma ofensa, depois vira um baita elogio. É para falar de boca cheia: G-O-S-T-O-S-A! De pedreiro a bacana, todo mundo gosta de chamar e quem não gosta de ouvir? E a cada grito na rua, a nega rebola mais.

Ela não passa impune na rua. Recebe assovio, desaforo de peão, buzinada de moto-boy. Triste de quem não recebe buzinada na rua. É a prova cabal de que o avião é de parar o trânsito e deixar qualquer aeroporto sem teto.

E tem coisa melhor do que ver mulher gostosa dançar? Tem. Mas os braços abertos, os olhos fechados, o quadril girando. Isso não é dança, é um convite. Não é à toa que só mulher gostosa é tirada para dançar.

Ela tem marca de sol e fica ainda mais gostosa quando mostra o que o biquíni esconde. É moleca, independente e corajosa.

Mulher gostosa tem TPM, celulite e estria. Mulher gostosa não se mede pelo busto, bunda ou quadril. Mas pela luz própria.

Matheus Tapioca

carinha_farinha
Texto: Matheus Tapioca
Ilustração: Michel Neuhaus

CARTÃO POSTAL

agosto 5, 2016

Milena acordou sozinha e ficou de frente para o espelho tentando encontrar onde poderia ter algo de errado. Saiu para o trabalho sozinha. Em sua mesa havia fotos das viagens que fez sozinha.

Foi almoçar sozinha. Sempre sentava na praça de alimentação como se estivesse esperando alguém. Marcava trinta minutos, levantava e ia comprar o almoço para comer sozinha.

Para não se sentir tão sozinha em casa, Milena deixava sempre a TV ligada, pensava em voz alta, discutia consigo mesma só para não escutar o que seu coração dizia.

Milena também tinha o hábito de atender telefones públicos que tocam para ninguém, já que os dela não tocavam nunca. Milena não pensava em suicídio porque seu medo de morrer sozinha era muito, muito maior.

Milena chegou em casa e encontrou um cartão postal no chão. De Paris.  Surpresa e ansiosa virou a foto. Estava escrito apenas: “Je t’aime!”. Ela não fazia idéia de quem havia lhe enviado o postal.

Pensou em ser um engano, mas era seu o endereço. Tentou lembrar dos amigos que foram morar fora, nada. Quem viajou de férias, nada. Esta noite, Milena dormiu acompanhada.

Sem remetente nem destinatário, o destino do coração de Milena estava selado. Milena não acordou sozinha. Arrumou-se para o postal, se perfumou para o cartão e foi trabalhar. Colocou a foto da Torre Eiffel ao lado do seu computador. Naquele dia Milena não esperou por ninguém para almoçar.

Ninguém dorme acompanhada abraçando travesseiro. Dias se passaram, tudo correu como sempre, mas com um pouco mais de pimenta em seus almoços. Chegando em casa, encontrou mais um postal. Escrito, desta vez, “I love you.”. O cartão era de Londres.

No dia seguinte, comparou as caligrafias e não batiam. Seriam dois apaixonados? Um romântico francês e um charmoso inglês? Para quem não tinha ninguém, Milena estava muito bem servida. Se sentindo linda, a mais amada das mulheres, Milena voltou para casa excitadíssima. Foi sua primeira Ménage à trois.

Milena tirou as fotos das viagens que fez sozinha e agora colecionava cartões postais em sua mesa no escritório. Passou a sair para o trabalho como quem fosse ao primeiro encontro. Sempre perfumada e bem arrumada, seus colegas passaram a convidá-la para almoçar. Milena não almoçava mais sozinha.

Mas em nenhum deles encontrou o admirador secreto dos cartões postais. Ninguém era tão romântico como seu correspondente amoroso. Seu amor cresceu, correu mundo, foi a Paris, se expôs no Louvre e se jogou da Torre Eiffel.

E foi num sábado chuvoso de tédio que ela, do seu sofá em frente à TV, viu um cartão ser empurrado por baixo da sua porta. Pulou como num susto e abriu a porta de casa. Era o moço dos correios cruzando a rua. Seria o carteiro? Milena voltou para casa e pegou o cartão. Era de Atenas.

Ela decidiu cortar o cabelo, sair com as amigas do trabalho e se dar ao desfrute. Mas agora, seu coração já era souvenir de um só turista. E assim foi durante semanas, não paravam de chegar cartões postais dizendo apenas “Eu te amo” na língua das cidades onde seu amante passava.

Amsterdam, Moscou, Madri, Tókio. Enquanto ele dava a volta ao mundo, mais voltas dava o coração de Milena. Anônimo no amor, homônimo da dor. No sábado seguinte, chegou o penúltimo cartão postal. Era um enorme “EU TE AMO”, escrito em bom português, no verso de um postal de São Paulo.

Aquele seria o grande dia. Ela se preparou por inteira para o seu turista, como quem corre no escuro de braços abertos. Tudo pronto. Garrafa de vinho aberta, Milena deslumbrante, esperou sentada no sofá, em frente à porta, uma, duas, três horas, até que um cartão postal é empurrado por baixo de sua porta.

Aquela não era hora do carteiro entregar correspondência. Milena levantou, foi até o cartão e, com o coração na boca, leu: toc, toc!

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca
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SOLIDÃO 2.0

agosto 5, 2016

Para todo lugar que eu vou, tem um amigo com seu dedo indicador mexendo no seu Smartphone de última geração.

Eles dão Check In no 4square, postam fotos no Instagram, sobem comentários no Facebook, mandam tweets a qualquer hora, de qualquer lugar.

Você que é amigo, nos momentos difíceis e divertidos, agora é coadjuvante. Os geeks não precisam de você.

A pessoa se isola no seu celular, brincando com o mais novo aplicativo inventado para transformar todas as pessoas em autistas. Autistas 2.0!

Não se conversa mais, apenas postam-se comentários. Não se lê mais, apenas dão uma olhada no seu blog. Não se assiste mais filmes bons, apenas compartilham vídeos do YouTube.

Alguns vão dizer: “Mas eu uso o celular para encontrar meus amigos”. Beleza. Aí você vai ao encontro deles e passa o tempo todo com o indicador na porra do aparelho.

Felizmente ainda não inventaram um aplicativo que substitui o sexo. Mas o que isso importa? Eles vão para cama com o iPhone.

Quantas vezes você almoçou e todas as pessoas da mesa estavam no brinquedinho? Repare. Cada um no seu mundo, dentro da internet, dentro do seu celular.

Foi assim que eu descobri que quanto mais conectado, mais solitário a gente é.

Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus

TIPO ASSIM

agosto 5, 2016

Já reparou como as pessoas falam “tipo assim” e “tipo” nos dias de hoje? Como se a gente soubesse o que a pessoa está, tipo, querendo falar.

É tipo pra lá, tipo pra cá, tipo assim, entende? Não entendo. É que, tipo, fico prestando atenção só no tanto de “tipo” que a pessoa fala. Será que, tipo, a pessoa só lê 140 caracteres? Ou só escreve “tipo assim”?

Tipo, as pessoas estão reduzindo seu vocabulário e falam “tipo”, sem saber a palavra que, tipo, devem usar. Até para falar as horas é tipo treze horas.

Parece aquelas pessoas que não sabem a palavra em inglês e tentam explicá-la, tipo, prum gringo. Mas estamos falando, tipo, em portugês. Será?

Acho que as pessoas, tipo, deveriam ler mais. Tipo, qualquer coisa que gostem e aprendam a falar outras palavras, aumentar o vocabulário, tipo assim, entende?

As pessoas quando não sabem uma palavra, tipo, tem preguiça de procurar no dicionário o significado e preferem falar “tipo”. Mas “tipo” pode ser qualquer coisa e coisa nenhuma, ao mesmo tempo. Uma coisa, tipo, péssima.

Já reparou quantos “tipo” você fala? E a quantidade que um adolescente é capaz de falar? É algo, tipo, assustador.

Mas também tem muito adulto falando “tipo” sem parar. Desse jeito, as pessoas também vão acabar ficando tipo… Assim.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Theo Siqueira

DIVERSÃO

agosto 4, 2016

Michel_Neuhaus_diversao

Mulher não suporta ver o homem se divertindo. Você conhece alguma mulher que incentive o namorado a ver seus amigos sem ela?  Que não reclame que quarta e domingo são dias sagrados para você assistir ao jogo do seu time?

Você bebe, ela fala que é para tomar “cuidado pra não virar alcoólatra, como aquele seu tio. É genético!”. Você fuma, ela tosse. Você dorme, ela te acorda. Você quer ver filme de menino, ela comédia romântica. E quando você está no bar, se divertindo com os amigos e amigas dela, fecha a cara, faz bico e pede pra ir embora.

Quando o homem está se divertindo no namoro, ela começa a falar em casamento. Quando começa a se divertir no casamento, ela só pensa em ficar grávida. Nascendo o rebento, ela quer que você acorde toda madrugada, sendo que só ela tem peito para dar. Uma judiação.

Se for para jogar alguma coisa com ela tem que ser tranca, uno ou ludo. Que homem se diverte jogando isso? É por isso que o homem mente. Diz que vai trabalhar até tarde, mas vai jogar poker com a turma. Me bata um abacate!

Até quando a gente é criança tem uma mulher gritando pra gente parar de se divertir e fazer a lição da escola. E desde menino acho que toda brincadeira não deve ter hora pra acabar.

E sabe por que as mulheres transam de olhos fechados? Só para não ver o homem se divertindo.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Texto: Matheus Tapioca
Ilustração: Michel Neuhaus

SER BAIANO É

agosto 3, 2016

É chamar de “Rei”, “Nego”, “Pai”, “Preto”, “Negão”, “Galego”, “Viado”, seu querido amigo.

É chamar de “Preta”, “Pretinha”, “Minha linda”, “Linda”, “Nega”, “Morena” (branca ou preta), “Discarada”, uma mulher que você ama.

Tem toda uma malemolência no falar tocando, feito um carinho. Como diria o recifense: “a diferença entre o baiano e o pernambucano é que os baianos são meio afrescalhados, né?”. Ahahahahah…
Adoro!

carinha_farinhaMatheus Tapioca

 

ESPORTE RADICAL

agosto 1, 2016

Michel_Neuhaus_esporte_radical

Meu esporte radical sempre foi amar. Desbravando matas, escalando corpos, caindo de cabeça sem pára-quedas, pulando de bungee jump sem corda.

Já levitei sem usar balão, voei sem asa delta, enfrentei gelo sem prancha e já caí do alto, muito alto.

Cicatrizes não me faltam: das dores de cotovelo, no peito, fígado e mutilações, só não me doem os arranhões.

Viciado em adrenalina, descendo cachoeiras de endorfina, remando em corredeiras de serotonina.

Meu coração entregue como troféu, sem pódio de chegada, nem medalha dedicada.

Não há vencedores, nem competidores. Apenas amadores, em busca do empate.

Cada partida, uma esperança. Cada cansaço, um colo. E em cada chegada, um êxtase.Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca

BUZU NA BAHIA

julho 20, 2016

Rapaz, buzu em Salvador é uma onda. Não importa a distância, sempre vai ter um vendedor ambulante dentro. Se a viagem for longa, você é abordado, pelo menos, sete vezes.

Tem vendedor do picolé Paletas Falcão: cajá, coco, limão, tapioca (sim, tem sorvete de tapioca), amendoim, por apenas R$1,00. No inverno de 34º, hoje, todos os passageiros esvaziaram o isopor. O vendedor aproveitou o ônibus para ir pra casa porque já tinha vendido todos os picolés do dia.

Ruffles, Fandangos, pipoca doce, amendoins torrado e cozido; chocolate, halls, trident, barbeador, presilha de cabelo (“xuxa” na Bahia), plástico de documentos,  apenas 1,00.

Há também o vendedor das palavras de Jesus. Que morreu para pagar nossos pecados (coitado) e quem não seguir a Bíblia arderá no inferno para sempre. Nem os crentes suportam.

Até vendedor de escova de dente vende seu peixe. Isso mesmo! Compre três, pague R$5,00. Modelos para adultos e a nova linha “Kids”em formato de golfinho e  Princesa Frozen. Um sucesso.

Mas o melhor produto é a “Mãozinha”: aquele pedaço de pau com uma mãozinha na ponta para coçar a costas. “Pare de coçar as costas no canto da parede, na porta do banheiro. Com a mãozinha você pode coçar deitado no sofá, por apenas R$3,00“. Esse tá na minha lista de compras.

É proibido passageiro entrar com aparelho sonoro, mas a regra não fala do motorista. Pablo, Aviões do Forró, Veveta e Milk estão na playlist. Hoje vim para o trabalho escutando a narração da Bíblia por Cid Moreira. Impressionante, até acreditei na veracidade da história.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

 

 

BAIANO INTROVERTIDO

maio 23, 2016

Acho que sou o único baiano introvertido que conheço. Mas não sou deprimido, nem infeliz.

Tenho medo de pessoas que sorriem de mais. Meu esporte preferido não é coletivo, é natação. Gosto de músicas tristes que só eu escuto, no volume que só eu suporto.

Aprendi a sair e viajar sozinho. Adoro morar só e encontrar a casa como deixei, quando saí.

Sou, como quase todo mundo, bipolar. Almoço sozinho, bebo sozinho, coisas do dia a dia que eu achava que eram atitudes apenas de pessoas solitárias. Não são.

Falo pouco, muitas vezes não emito minha opinão. Não quero convencer ninguém de que estou mais certo que o outro. Afinal, quem está certo?

Sou uma pessoa pensativa, sou pago para criar. Trabalho que ocorre dentro de cada um, mesmo quando é compartilhado.

Este blog não é literatura, é apenas uma maneira que encontrei de ser menos introvertido, tentando escrever coisas extrovertidas.

Pareço sério, sisudo, porque sou fechado, difícil de me abrir. Minha vida é, no máximo, um blog aberto.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

SEGURANÇA

maio 19, 2016

Todos precisam de segurança. Todos querem ter o controle da situação. Manter o controle, sempre. Seguro, confortável, estabilizado, maduro, centrado. Aí, chega a paixão…

carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

BORBOLETAS NO ESTÔMAGO

maio 16, 2016

As minhas saíram pelos “quatro buracos da minha cabeça”, meus poros e meus braços. Como é bom sentir esse friozinho na barriga, voltar a ter quinze anos de idade e se arrumar para o primeiro encontro.

As borboletas saem em forma de olhares, perfumes inebriantes, suores, abraços, pernas bambas e beijos na boca. O Efeito Borboleta faz tudo mudar ao redor, capaz de formar um verdadeiro tufão dentro da gente.

Elas saem voando com as qualidades no mode on: deixar ela falar sem parar, fazer ela dar risada, escolher os temas mais interessantes e algumas merdas, ser romântico, abrir a porta do carro, pagar a conta, enfim, como é bom voltar a ser adolescente, mas com CNH.

Mas algumas continuam presas com os defeitos no mode off: nada de palavrões, mostrar nervosismo, suor na mão, encolher a barriga, desligar o celular, comer e beber pouco, fingir segurança e autoconfiança, sem ciúmes e estresse. No primeiro encontro, todas as borboletas são multicoloridas.

Se não for assim, elas voltam para o estômago prontas para baterem suas asas novamente. Mas se tudo der certo, basta abrir as gaiolas do coração.

carinha_farinha
Matheus Tapioca

INSÔNIA É A PIOR SOLIDÃO QUE EXISTE

maio 9, 2016

A insônia é a pior solidão que existe. Mesmo dormindo com alguém, você não vai acordar quem está ao seu lado. Você está sozinho na cama, na casa, no prédio, na cidade onde todos dormem. A solidão é tão grande que nem Morpheus aceita você.

Liga e desliga a TV inúmeras vezes, conhecendo toda a programação da madrugada na TV. Cento e oitenta canais sem consolo. Nem a locução em inglês, com a voz mansa do Discovery Channel, está sozinha, porque você é a única audiência.

Abre e fecha a geladeira mil vezes. Come com a fome de sentinela, com a esperança que o sangue do cérebro vá todo para o estômago e o faça dormir. Mas o jejum é de sono. Você deixa de comer. Outro comportamento da solidão.

Duas, três, quatro gotas de Rivotril, nove não o farão acordar, e você continua sozinho na escuridão. Como você deseja aquela anestesia de endoscopia que o médico pede para contar até dez e você apaga no quatro. A vontade de chorar é inevitável. Outra característica da solidão.

E você sabe que às sete horas da manhã é o pior horário. É o momento que o sono vem com força total, mas você tem que levantar para ir trabalhar. Red Bull para permanecer em vigília.

A solidão continua quando você está no trânsito, onde todos estão com os olhos inchados. No escritório todos dormiram, menos você. Ninguém vai sentir o que você está sofrendo, quando é a solidão que causa a sua insônia.

carinha_farinha
Matheus Tapioca

 

 

 

 

 

HOMÍCIDIO DOLOSO

maio 5, 2016

Ela o matou em seu coração por legítima defesa.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

TUDO ÓTIMO

maio 2, 2016

pooA partir de agora, toda vez que me perguntarem “Como vai?”, eu vou responder “Tudo ótimo!”.

Odeio quando a pessoa responde “tudo indo”, “vai se levando”,  “deixando a vida me levar”, “nas mãos do nosso Senhor”, “vivendo”, “sobrevivendo” (este é o pior). E aí de você se perguntar “por que?”.

É quase como um lamento, querendo seu consolo, sua pena, um pouco a mais da sua atenção, quando, na verdade, você só queria dar um “oi!” por educação.

“Tudo ótimo” é bom até quando você está péssimo. Mostra que você não tem nada a lamentar, fazendo com que a conversa não renda. Além disso, você passa uma energia boa, será lembrado pelo outro com alegria.

Ninguém quer saber da felicidade dos outros (e é até bom que não saibam). Eles querem que você ouça que a vida delas está “uma merda!”. E ainda dizem “você que é feliz!”. Mais um motivo para confirmar minha teoria.

“Tudo ótimo” pode virar um mantra para sua vida, um reforço positivo, diário, de autoajuda. E vai permitir que você veja que é mais forte do que imagina, mesmo levando muita pancada da vida.

carinha_farinhaMatheus Tapioca
Ilustração: Theo Siqueira

CONVERSA DE BAR

abril 28, 2016

O rapaz sendo complacente, sorriso fácil, todo romântico, ouvindo a mulher falar sem parar e fazendo de tudo para seduzir, quando ela solta:

– Não consigo me envolver com ninguém que não desce fundo, no âmago da tristeza e de si mesmo, assim como eu.

Ele pensou: vai querer falar de Freud na mesa do bar? Porra de âmago de si mesmo! Ele encerra a conversa:

– Mesmo você não sabendo o quanto o outro afunda, não seria bom ter uma pessoa na superfície para puxar você do fundo do poço? Garçom, a conta por favor.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

LUTA

abril 21, 2016

Meu golpe é baixo. Meu nocaute é a palavra. Meu tatame é redondo. Meu beijo é roubado. Meu olhar é de psicopata. Sexo é meu MMA. Seu coração é meu cinturão do UFC, mas nunca um troféu.

carinha_farinha Matheus Tapioca

CALA A BOCA!

abril 19, 2016

É tanta coisa que penso, sinto, brinco, dou risada, choro, engulo, vomito. São coisas que não cabem em mim, muito menos neste blog.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

RÓTULOS

abril 18, 2016

Você é de humanas ou exatas? Coxinha ou petralha? Gay ou goy? Você é nota nove? Como você se rotula?

A gente sempre quer rotular as pessoas e os sentimentos. Ficamos na luta interminável de querer dar nome a tudo, ser racional o suficiente para entender o que é cada coisa. Sem pensar que, muitas vezes, o importante é apenas sentir.

Sentir aquele poema que você não entendeu, a música que envolveu sem saber o porquê, o abraço que comoveu sem elucidar, o filme de Fellini que você não desvendou mas se emocionou, nem tudo na vida vem mastigadinho.

Numa prova de vestibular havia uma letra de Chico Buarque para testar a capacidade de interpretação de texto dos candidatos. Sabendo disso, Chico decidiu responder às questões. Quando foi olhar o gabarito de dez perguntas, ele acertou apenas cinco. Como rotular os sentimentos dentro de cada verso?

Pergunte para aquela pessoa especial: “Por que você me ama?” Se ela tiver uma explicação, não é amor. Amor não se rotula. Rótulos reduzem o entendimento e o sentimento.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

O MEU É PIOR DO QUE O SEU

abril 14, 2016

Já reparou que todo mundo tem um caso mais trágico, doloroso, assombroso do que os outros? Parece uma competição de quem mais se fudeu na vida.

– A dor do parto é a mais forte que existe.
– Isso por você não teve pedras nos rins.
– Ah! Mas homem é mais fraco pra dor. Porque tive uma crise renal na hora de parir.

Se não é com dor, é com tragédia:

– Menina, passei por uma coisa terrível na infância, saí pelo pára-brisa num acidente de carro e escapei da morte.
– Pois a família do meu tio morreu toda num acidente, na BR.

Sobre o dia a dia:

– Passei duas horas de relógio na fila do DETRAN pra renovar minha carteira.
– Eu acho é pouco! Passei trê horas no trânsito e uma hora na fila do banco para o caixa dizer que não pagava aquele boleto.

Acidentes:

– Rapaz, quebrei o pé. Quinze dias de bota ortopédica.
– Eu cai naquela lança da grande do portão e fiquei vinte e três dias com a perna aberta no hospital. Ó pai ó, a cicatriz.

Tem com sofrência também:

– Já tive uma esposa que me traia com meu irmão.
– E eu? Esperei nove meses para ver meu filho nascer e minha mulher pariu um anão!

carinha_farinhaMatheus Tapioca

TEMPERO DA VIDA

abril 11, 2016

Quero te saborear com os cinco sentidos:
Passar a língua pelo teu corpo
Experimentando teu sal a gosto

Quero te saborear com os cinco sentidos:
Mexer o teu quadril sem parar
Para a vida nunca desandar

Quero te saborear com os cinco sentidos:
Observar teu ponto de ebulição
Revirando os olhos
Entrando em erupção

Quero te saborear com os cinco sentidos:
Fechar o olhos e sentir teu cheiro tomar o quarto, a casa, a vizinhança, o dia, minha vida

Quero te saborear com os cinco sentidos:
Ouvir teus gemidos
Pedindo mais

Quero te saborear com os cinco sentidos
Porque é com seu tempero que se faz a melhor tapioca

 

carinha_farinha
Matheus Tapioca

 

 

BEIJO HÉLICE

abril 7, 2016

Homem que é homem não deixa de ir pra cama com uma mulher que beija mal. Já as mulheres, não dão nem o telefone. Tem beijos que você tenta mudar, ensina como você gosta, aprende como ela interage, aumenta ou diminui a velocidade, se ajusta e outros não tem solução. Totalmente broxante.

Outro dia, Carol U. me falou de um cardápio de beijos ruins que ela e suas amigas experimentaram e catalogaram:

Beijo Hélice: a língua gira sem parar, só falta levantar vôo e você, sem saber o que fazer, não beija nunca mais. “Está entre os piores”, segundo ela;

Beijo Cuco: a língua entra e sai feito um relógio de cuco. Com o passarinho entrando e saindo a cada beijo, ou seja, tem hora para acabar;

Boca de Cu: é um bico, como se fosse um selinho, porém a língua sai do biquinho que não se abre. Isso mesmo, um cotoco de língua fica para fora do bico do rapaz;

Beijo Babado: é beijo com uso de guardanapo. A cara fica toda babada, feito cachorro quando lambe nosso rosto;

Beijo Cinzeiro: você tem certeza que beijou um cinzeiro, depois de beija um fumante. Nesses casos, peça sempre um trago do cigarro dele, antes de beijá-lo;

Beijo Alcóolico: se tiver bebendo a mesma bebida, massa. Beijo com gosto de cerveja é péssimo. Whisky é mais aconselhável;

Beijo sem Língua: a boca abre, fecha, muda de posição, mas nada da língua sair e dar as caras. O gato comeu? Beijo técnico? Vai passar em qual novela?

É o fim do romance.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

CORRETOR ORTOGRÁFICO

abril 4, 2016

Caralho vira Carvalho;
Descarado, descartado;
Nigrinha, nigeriana;
Cu, curti;
Boceta é corrigido por bocejando;
Pepeka por Perpétuas;
Viado, Virado;
Bicha, bichano;
Periguete, periguei;
Escroto, escritor;
Pau é pão;
Sacanagem, sacando;
Canalha seria cangalha?
Amante se transforma em amanteigado;
Cafetina, cafeteira;
Foda, fidalgo;
Fodido vira focinho
Capeta, capela;
Grelo, grelou;
Porra muda para porta;
Pentelho, penteado.

A gente tem que corrigir o corretor. Virou quase obrigatório o uso de asterisco para sinalizar uma correção na mensagem, criando vários problemas de interpretação.

Mas também tem os “Atos Falhos Digitais”. Quando o inverso acontece. “Vc quer trepar esse fds? Hehe *trampar, trabalhar…”. “Quero jantar um pênis. Oops… *penne”. “Que tal uma buceta?”.

Talvez seja uma forma de fugir da opressão do sistema, o grande irmão de George Orwell, o establishment. Ou os construtores do corretor ortográfico não falam nome feio? Seria feito por freiras fransciscanas? Melhor desligar o corretor.

carinha_farinha

Por Matheus Tapioca

AMASSO

março 4, 2013

Ela era tão carente que se sentia abraçada quando colocava o cinto de segurança do carro.

carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

MARRA

agosto 15, 2011

Nariz em pé, peito estufado, bunda arrebitada. Uma escoliose no alto do seu pedestal.

A marra é quase uma religião no Rio de Janeiro. O culto é ao corpo, a igreja é a academia, o padre é o personal, a hóstia é a bolinha e a cabeça é a oficina do diabo.

Quando morei no Rio, achava que só as mulheres lindas eram marrentas (confesso que algumas tinham o direito de ser). Mas depois descobri que até as feias eram metidas.

E do alto seu altar, você é invisível. Não agradecem por você ter aberto a porta do elevador. Acham que a porta abriu sozinha. Uma mágica, um abre-te Sésamo.

Se fosse Gisele, vá lá. Mas, porra, feia feito o custipiu e nem olha para você? Tudo bem que sou careca, mas tenho olho azul e sotaque baiano.

Os homens também se acham. Só pelo simples fato de serem… cariocas. Estes vão de sunga branca pra praia. Não é à toa que o Brasil inteiro diz que o problema do Rio são os cariocas.

Muitos dos meus melhores amigos são cariocas (exceção que confirma a MINHA regra). Amo-os, mas eles se acham deuses em Ipanema.

É tão blasè, tanto doce, tanto nariz, tanto umbigo, tanto Global, que acabam voltando para casa sozinhas.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
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METROSSEXUAL

janeiro 31, 2011

Ok, admito: eu tentei ser metrossexual. É verdade. Comprei Óleo Corporal Menta e Alecrim Refrescante, Hidratante Corporal Algodão, Natura Chronos 30+ (poucos sinais), sabonetes esfoliantes buriti, pitanga, cacau e andiroba.

Depois de tomar banho todos os dias, aprendi que sabonete esfoliante não se usa todo dia. Apenas duas ou três vezes por semana e não pode passar no rosto. Ou seja, tive que comprar outro sabonete só para o rosto.

Descobri que quando se usa o óleo hidratante no banho não é recomendável passar o hidratante corporal, e vice-versa, para a pele não ficar muito oleosa.

Natura Chronos 30+ (poucos sinais) é para usar duas vezes ao dia, com movimentos para cima, lutando inutilmente contra a gravidade. Estou pensando seriamente em usar o 50+ para ver se adianta alguma coisa e fico até mais novo.

Agora tudo tem um limite: não faço pé, mão, sobrancelha, nem uso maquiagem reparadora. E meu bolso agradece por ser careca, senão teria que comprar o Shampoo Condicionante Limpeza Profunda.

Nessa experiência tive a mesma sensação que toda mulher deve sentir: o bem estar de se cuidar. Sair do banho cheiroso, hidratado e achando até minha barriga sexy. Praticamente um gay.

Todo esse tratamento não durou muito. Dá muito trabalho ser metrossexual. Não pode isso, não pode aquilo e minhas condutas não são pautadas pela moda.

Além de ficar horas no banho, vamo combinar que passar tanta coisa assim no corpo não deve fazer muito bem.

Mas esses poucos dias foram suficientes para eu evoluir como homem: nunca mais reclamo do atraso das mulheres na hora de se arrumar.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus

ESPERMOGRAMA

outubro 5, 2009

Mchel_Neuhaus_Espermograma

O nome só não é pior do que o constrangimento. Quando o médico me deu a prescrição, a paranóia começou antes de sair do consultório. Será que sou estéril? Porra! Tantos anos transando de camisinha… Pra que?

O constrangimento começou na ligação para o laboratório. Eu não sabia se preferia ser atendido por um homem ou por uma mulher. A mulher por causa da prática e o homem pelo resultado. Marquei com o máximo de tempo permitido.

Três semanas depois, cheguei ao laboratório e parecia que todo mundo sabia o que eu ia fazer lá dentro. Na recepção, a mulher falou para quem quisesse ouvir:
– ESPERMOGRAMA?! A sua senha é diferente. Dobre a direita, depois a esquerda.

Ainda tinha outro balcão. Fui lá e só mostrei a prescrição e a enfermeira, bonitinha até, me pediu para esperar na última sala de espera. Parecia que ia sair radiação na coleta, de tão longe de tudo e de todos que fiquei.

Numa situação como essa, num momento como esse, é preciso ter um mínimo de fantasia e fetiche para se chegar nos “finalmentes”. Impossível não pensar numa enfermeira de minissaia, colocando o dedo na boca pedindo silêncio.  Infelizmente os laboratórios sabem disso e me apareceu um tribufu virado no estrupício me chamar.

Entramos numa sala e ela falou:
– Tem revista e DVD, o controle remoto está aqui. Quando terminar, deixe o potinho no balcão ao lado e diga na recepção que o frasco já está disponível para análise.

Que excitante, não? Agora me diga com que coragem eu ia pegar no controle remoto, na revista ou no DVD? Se você conhece alguém que nunca broxou, ele broxa aqui. O lugar esterilizado mais nojento que já fiquei.

Passei longos minutos olhando pro potinho, nunca tinha feito pontaria pra isso, será que eu vou conseguir acertar? E se errar? Vou ter que tentar de novo? E quem já perdeu a mira? Acertou onde? Arg! Cadê a enfermeira de minissaia com o dedo na boca pedindo silêncio?

Vai logo. Na adolescência meu recorde eram 2,5 minutos. Vamos. Desejei, por alguns segundos, ter ejaculação precoce. E nada. O dragão bateu na porta, me lembrei do rosto dela… Nada. Não resisti. Liguei o DVD e era o filme de Gretchen… Que coisa terrível. Naquela idade…

Desliguei o DVD, me concentrei e fui profissional. Pela primeira vez na vida, consegui recolher a amostra sem sentir prazer. Me senti como um gado reprodutor. Deixei o potinho no balcão e sai correndo daquele laboratório para nunca mais voltar.

Pela internet, imprimi o resultado: 300 milhões de espermatozóides, 92% em bom estado, 2% sem cabeça e 1% sem rabo. Ou será que estavam com o rabo entre as pernas com medo do potinho? Os outros 5% são de um monte de coisa que não sei pra que serve. Mas confesso: nunca me senti tão viril. Capaz de “abrir os braços e fazer um país”.Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca


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