Archive for the ‘CRÔNICAS’ Category

MANDA NUDES

agosto 17, 2016

nudes

Quem nunca? É ótimo provocar e é uma delícia receber. Com o advento da tecnologia, o corpo está ao alcance do celular.

É uma espiadinha, um arrepio, uma fresta da beleza e da sensualidade numa noite solitária, numa tarde entediante ou num delicioso “bom dia”.

Acho ridículo homem que espalha na rede os nudes das mulheres. Não tenho essa falta de respeito ou carácter. Muito pelo contrário. Não quero dividir com ninguém, quero essa foto todinha só pra mim.

Você deixa de ser especial e até ganha processo na justiça, só porque quer se exibir para seus amigos. Sem descobrir que os melhores comem “queto”, o que deixa você mais respeitado por eles e, principalmente, por elas.

Mil pecados passam pela cabeça, não consegue mais trabalhar, nem dormir, só esperando a próxima. Qual será a parte do corpo? A produção, a pose, caras, bocas, silhuetas que estão na palma da sua mão, clamando: manda nudes!

carinha_farinhaMatheus Tapioca
Ilustração: Theo Siqueira

 

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CARTÃO POSTAL

agosto 5, 2016

Milena acordou sozinha e ficou de frente para o espelho tentando encontrar onde poderia ter algo de errado. Saiu para o trabalho sozinha. Em sua mesa havia fotos das viagens que fez sozinha.

Foi almoçar sozinha. Sempre sentava na praça de alimentação como se estivesse esperando alguém. Marcava trinta minutos, levantava e ia comprar o almoço para comer sozinha.

Para não se sentir tão sozinha em casa, Milena deixava sempre a TV ligada, pensava em voz alta, discutia consigo mesma só para não escutar o que seu coração dizia.

Milena também tinha o hábito de atender telefones públicos que tocam para ninguém, já que os dela não tocavam nunca. Milena não pensava em suicídio porque seu medo de morrer sozinha era muito, muito maior.

Milena chegou em casa e encontrou um cartão postal no chão. De Paris.  Surpresa e ansiosa virou a foto. Estava escrito apenas: “Je t’aime!”. Ela não fazia idéia de quem havia lhe enviado o postal.

Pensou em ser um engano, mas era seu o endereço. Tentou lembrar dos amigos que foram morar fora, nada. Quem viajou de férias, nada. Esta noite, Milena dormiu acompanhada.

Sem remetente nem destinatário, o destino do coração de Milena estava selado. Milena não acordou sozinha. Arrumou-se para o postal, se perfumou para o cartão e foi trabalhar. Colocou a foto da Torre Eiffel ao lado do seu computador. Naquele dia Milena não esperou por ninguém para almoçar.

Ninguém dorme acompanhada abraçando travesseiro. Dias se passaram, tudo correu como sempre, mas com um pouco mais de pimenta em seus almoços. Chegando em casa, encontrou mais um postal. Escrito, desta vez, “I love you.”. O cartão era de Londres.

No dia seguinte, comparou as caligrafias e não batiam. Seriam dois apaixonados? Um romântico francês e um charmoso inglês? Para quem não tinha ninguém, Milena estava muito bem servida. Se sentindo linda, a mais amada das mulheres, Milena voltou para casa excitadíssima. Foi sua primeira Ménage à trois.

Milena tirou as fotos das viagens que fez sozinha e agora colecionava cartões postais em sua mesa no escritório. Passou a sair para o trabalho como quem fosse ao primeiro encontro. Sempre perfumada e bem arrumada, seus colegas passaram a convidá-la para almoçar. Milena não almoçava mais sozinha.

Mas em nenhum deles encontrou o admirador secreto dos cartões postais. Ninguém era tão romântico como seu correspondente amoroso. Seu amor cresceu, correu mundo, foi a Paris, se expôs no Louvre e se jogou da Torre Eiffel.

E foi num sábado chuvoso de tédio que ela, do seu sofá em frente à TV, viu um cartão ser empurrado por baixo da sua porta. Pulou como num susto e abriu a porta de casa. Era o moço dos correios cruzando a rua. Seria o carteiro? Milena voltou para casa e pegou o cartão. Era de Atenas.

Ela decidiu cortar o cabelo, sair com as amigas do trabalho e se dar ao desfrute. Mas agora, seu coração já era souvenir de um só turista. E assim foi durante semanas, não paravam de chegar cartões postais dizendo apenas “Eu te amo” na língua das cidades onde seu amante passava.

Amsterdam, Moscou, Madri, Tókio. Enquanto ele dava a volta ao mundo, mais voltas dava o coração de Milena. Anônimo no amor, homônimo da dor. No sábado seguinte, chegou o penúltimo cartão postal. Era um enorme “EU TE AMO”, escrito em bom português, no verso de um postal de São Paulo.

Aquele seria o grande dia. Ela se preparou por inteira para o seu turista, como quem corre no escuro de braços abertos. Tudo pronto. Garrafa de vinho aberta, Milena deslumbrante, esperou sentada no sofá, em frente à porta, uma, duas, três horas, até que um cartão postal é empurrado por baixo de sua porta.

Aquela não era hora do carteiro entregar correspondência. Milena levantou, foi até o cartão e, com o coração na boca, leu: toc, toc!

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca
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SER BAIANO É

agosto 3, 2016

É chamar de “Rei”, “Nego”, “Pai”, “Preto”, “Negão”, “Galego”, “Viado”, seu querido amigo.

É chamar de “Preta”, “Pretinha”, “Minha linda”, “Linda”, “Nega”, “Morena” (branca ou preta), “Discarada”, uma mulher que você ama.

Tem toda uma malemolência no falar tocando, feito um carinho. Como diria o recifense: “a diferença entre o baiano e o pernambucano é que os baianos são meio afrescalhados, né?”. Ahahahahah…
Adoro!

carinha_farinhaMatheus Tapioca

 

BUZU NA BAHIA

julho 20, 2016

Rapaz, buzu em Salvador é uma onda. Não importa a distância, sempre vai ter um vendedor ambulante dentro. Se a viagem for longa, você é abordado, pelo menos, sete vezes.

Tem vendedor do picolé Paletas Falcão: cajá, coco, limão, tapioca (sim, tem sorvete de tapioca), amendoim, por apenas R$1,00. No inverno de 34º, hoje, todos os passageiros esvaziaram o isopor. O vendedor aproveitou o ônibus para ir pra casa porque já tinha vendido todos os picolés do dia.

Ruffles, Fandangos, pipoca doce, amendoins torrado e cozido; chocolate, halls, trident, barbeador, presilha de cabelo (“xuxa” na Bahia), plástico de documentos,  apenas 1,00.

Há também o vendedor das palavras de Jesus. Que morreu para pagar nossos pecados (coitado) e quem não seguir a Bíblia arderá no inferno para sempre. Nem os crentes suportam.

Até vendedor de escova de dente vende seu peixe. Isso mesmo! Compre três, pague R$5,00. Modelos para adultos e a nova linha “Kids”em formato de golfinho e  Princesa Frozen. Um sucesso.

Mas o melhor produto é a “Mãozinha”: aquele pedaço de pau com uma mãozinha na ponta para coçar a costas. “Pare de coçar as costas no canto da parede, na porta do banheiro. Com a mãozinha você pode coçar deitado no sofá, por apenas R$3,00“. Esse tá na minha lista de compras.

É proibido passageiro entrar com aparelho sonoro, mas a regra não fala do motorista. Pablo, Aviões do Forró, Veveta e Milk estão na playlist. Hoje vim para o trabalho escutando a narração da Bíblia por Cid Moreira. Impressionante, até acreditei na veracidade da história.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

 

 

BAIANO INTROVERTIDO

maio 23, 2016

Acho que sou o único baiano introvertido que conheço. Mas não sou deprimido, nem infeliz.

Tenho medo de pessoas que sorriem de mais. Meu esporte preferido não é coletivo, é natação. Gosto de músicas tristes que só eu escuto, no volume que só eu suporto.

Aprendi a sair e viajar sozinho. Adoro morar só e encontrar a casa como deixei, quando saí.

Sou, como quase todo mundo, bipolar. Almoço sozinho, bebo sozinho, coisas do dia a dia que eu achava que eram atitudes apenas de pessoas solitárias. Não são.

Falo pouco, muitas vezes não emito minha opinão. Não quero convencer ninguém de que estou mais certo que o outro. Afinal, quem está certo?

Sou uma pessoa pensativa, sou pago para criar. Trabalho que ocorre dentro de cada um, mesmo quando é compartilhado.

Este blog não é literatura, é apenas uma maneira que encontrei de ser menos introvertido, tentando escrever coisas extrovertidas.

Pareço sério, sisudo, porque sou fechado, difícil de me abrir. Minha vida é, no máximo, um blog aberto.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

SEGURANÇA

maio 19, 2016

Todos precisam de segurança. Todos querem ter o controle da situação. Manter o controle, sempre. Seguro, confortável, estabilizado, maduro, centrado. Aí, chega a paixão…

carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

BORBOLETAS NO ESTÔMAGO

maio 16, 2016

As minhas saíram pelos “quatro buracos da minha cabeça”, meus poros e meus braços. Como é bom sentir esse friozinho na barriga, voltar a ter quinze anos de idade e se arrumar para o primeiro encontro.

As borboletas saem em forma de olhares, perfumes inebriantes, suores, abraços, pernas bambas e beijos na boca. O Efeito Borboleta faz tudo mudar ao redor, capaz de formar um verdadeiro tufão dentro da gente.

Elas saem voando com as qualidades no mode on: deixar ela falar sem parar, fazer ela dar risada, escolher os temas mais interessantes e algumas merdas, ser romântico, abrir a porta do carro, pagar a conta, enfim, como é bom voltar a ser adolescente, mas com CNH.

Mas algumas continuam presas com os defeitos no mode off: nada de palavrões, mostrar nervosismo, suor na mão, encolher a barriga, desligar o celular, comer e beber pouco, fingir segurança e autoconfiança, sem ciúmes e estresse. No primeiro encontro, todas as borboletas são multicoloridas.

Se não for assim, elas voltam para o estômago prontas para baterem suas asas novamente. Mas se tudo der certo, basta abrir as gaiolas do coração.

carinha_farinha
Matheus Tapioca

HOMÍCIDIO DOLOSO

maio 5, 2016

Ela o matou em seu coração por legítima defesa.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

TUDO ÓTIMO

maio 2, 2016

pooA partir de agora, toda vez que me perguntarem “Como vai?”, eu vou responder “Tudo ótimo!”.

Odeio quando a pessoa responde “tudo indo”, “vai se levando”,  “deixando a vida me levar”, “nas mãos do nosso Senhor”, “vivendo”, “sobrevivendo” (este é o pior). E aí de você se perguntar “por que?”.

É quase como um lamento, querendo seu consolo, sua pena, um pouco a mais da sua atenção, quando, na verdade, você só queria dar um “oi!” por educação.

“Tudo ótimo” é bom até quando você está péssimo. Mostra que você não tem nada a lamentar, fazendo com que a conversa não renda. Além disso, você passa uma energia boa, será lembrado pelo outro com alegria.

Ninguém quer saber da felicidade dos outros (e é até bom que não saibam). Eles querem que você ouça que a vida delas está “uma merda!”. E ainda dizem “você que é feliz!”. Mais um motivo para confirmar minha teoria.

“Tudo ótimo” pode virar um mantra para sua vida, um reforço positivo, diário, de autoajuda. E vai permitir que você veja que é mais forte do que imagina, mesmo levando muita pancada da vida.

carinha_farinhaMatheus Tapioca
Ilustração: Theo Siqueira

CONVERSA DE BAR

abril 28, 2016

O rapaz sendo complacente, sorriso fácil, todo romântico, ouvindo a mulher falar sem parar e fazendo de tudo para seduzir, quando ela solta:

– Não consigo me envolver com ninguém que não desce fundo, no âmago da tristeza e de si mesmo, assim como eu.

Ele pensou: vai querer falar de Freud na mesa do bar? Porra de âmago de si mesmo! Ele encerra a conversa:

– Mesmo você não sabendo o quanto o outro afunda, não seria bom ter uma pessoa na superfície para puxar você do fundo do poço? Garçom, a conta por favor.

carinha_farinhaMatheus Tapioca


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