Posts Tagged ‘Bahia’

TIPO ASSIM

agosto 5, 2016

Já reparou como as pessoas falam “tipo assim” e “tipo” nos dias de hoje? Como se a gente soubesse o que a pessoa está, tipo, querendo falar.

É tipo pra lá, tipo pra cá, tipo assim, entende? Não entendo. É que, tipo, fico prestando atenção só no tanto de “tipo” que a pessoa fala. Será que, tipo, a pessoa só lê 140 caracteres? Ou só escreve “tipo assim”?

Tipo, as pessoas estão reduzindo seu vocabulário e falam “tipo”, sem saber a palavra que, tipo, devem usar. Até para falar as horas é tipo treze horas.

Parece aquelas pessoas que não sabem a palavra em inglês e tentam explicá-la, tipo, prum gringo. Mas estamos falando, tipo, em portugês. Será?

Acho que as pessoas, tipo, deveriam ler mais. Tipo, qualquer coisa que gostem e aprendam a falar outras palavras, aumentar o vocabulário, tipo assim, entende?

As pessoas quando não sabem uma palavra, tipo, tem preguiça de procurar no dicionário o significado e preferem falar “tipo”. Mas “tipo” pode ser qualquer coisa e coisa nenhuma, ao mesmo tempo. Uma coisa, tipo, péssima.

Já reparou quantos “tipo” você fala? E a quantidade que um adolescente é capaz de falar? É algo, tipo, assustador.

Mas também tem muito adulto falando “tipo” sem parar. Desse jeito, as pessoas também vão acabar ficando tipo… Assim.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Theo Siqueira

BUZU NA BAHIA

julho 20, 2016

Rapaz, buzu em Salvador é uma onda. Não importa a distância, sempre vai ter um vendedor ambulante dentro. Se a viagem for longa, você é abordado, pelo menos, sete vezes.

Tem vendedor do picolé Paletas Falcão: cajá, coco, limão, tapioca (sim, tem sorvete de tapioca), amendoim, por apenas R$1,00. No inverno de 34º, hoje, todos os passageiros esvaziaram o isopor. O vendedor aproveitou o ônibus para ir pra casa porque já tinha vendido todos os picolés do dia.

Ruffles, Fandangos, pipoca doce, amendoins torrado e cozido; chocolate, halls, trident, barbeador, presilha de cabelo (“xuxa” na Bahia), plástico de documentos,  apenas 1,00.

Há também o vendedor das palavras de Jesus. Que morreu para pagar nossos pecados (coitado) e quem não seguir a Bíblia arderá no inferno para sempre. Nem os crentes suportam.

Até vendedor de escova de dente vende seu peixe. Isso mesmo! Compre três, pague R$5,00. Modelos para adultos e a nova linha “Kids”em formato de golfinho e  Princesa Frozen. Um sucesso.

Mas o melhor produto é a “Mãozinha”: aquele pedaço de pau com uma mãozinha na ponta para coçar a costas. “Pare de coçar as costas no canto da parede, na porta do banheiro. Com a mãozinha você pode coçar deitado no sofá, por apenas R$3,00“. Esse tá na minha lista de compras.

É proibido passageiro entrar com aparelho sonoro, mas a regra não fala do motorista. Pablo, Aviões do Forró, Veveta e Milk estão na playlist. Hoje vim para o trabalho escutando a narração da Bíblia por Cid Moreira. Impressionante, até acreditei na veracidade da história.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

 

 

LADO A

dezembro 16, 2013

mari_farol

Tapioca voltou para a Bahia em promoção. Saindo dor forno como um turista alemão.

Fresquinha: mesmo depois de passar dois meses de férias, ser assaltado, viver o caos do transporte público da cidade e de torrar a careca nas quatro estações soteropolitanas: verão, verão, verão e verão.

Salgada: o mar quente, o suor negro, peixe vermelho frito, o pôr do sol no mar. Para muitos, voltar para Salvador foi um passo para trás. Para mim, um pé fincado na areia da praia. E eu digo: “Não vá se fuder, não, fique ai!” (uma das melhores expressões da baianidade nagô).

Doce: o azul, a preguiça, o acolhimento, o abraço de bebê, comida de casa, família, o horizonte, a voz de Gal, o lindo sorriso branco do negro. É gente falando “massa”. Doce como uma rede após o almoço. Doce feito beiju de Tapioca.

carinha_farinha
Doce ou salgada?

BECO DO FRANÇA

maio 28, 2013

beco1

No Rio Vermelho, em Salvador, existe um beco estreito, entre o Boteco do França e uma igreja evangélica.

De um lado, o francês que abriu um bar. Do outro, no alto da igreja, literalmente em cima do bar, um néon verde escreve a frase com letras garrafais:
ARREPENDEI-VOS E CREDE NO EVANGÉLIO.

O beco que não tinha nome, virou o Beco do França.


carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

CIGANO BAIANO

março 10, 2013

Depois de ser “baiano” em São Paulo.
Depois de ser “paraíba” no Rio.
Depois de fazer “baianada” no trânsito de BH.

Depois de viver para trabalhar em São Paulo.
Depois de trabalhar para viver no Rio.
Depois de um freela em BH.

Depois de driblar a marra das cariocas.
Depois de conhecer as mulheres loucas de BH.
Depois de sentir frio com as paulistas.

Depois de ser bem atendido em São Paulo, mas sem simpatia.
Depois de ser mal atendido no Rio, com antipatia.
Depois de uma prosa em BH, com simpatia.

Depois do carioca me convidar, mas nunca dar o endereço.
Depois do mineiro sempre me convidar e me levar ao endereço.
Depois do paulista não me convidar.

Depois de ouvir o carioca falar do que não sabe.
Depois de ouvir o paulista achando que sabe de tudo.
Depois de ouvir o silêncio dos mineiros.

Depois de descobrir que carioca tem o melhor dia.
Depois de descobrir que paulistano, a melhor noite.
Depois de descobrir que Minas tem o melhor sítio.

Depois de ouvir o carioca falar alto.
Depois de ouvir o paulista falar “meu”.
E mineiro falar “véi!”.

Depois de saber que Canjica em São Paulo é Mugunzá no Nordeste.
Comer salsichão em Festa Junina no Rio e canjiquinha em Minas.

Depois de ficar duas horas de relógio num caminho de dez minutos por causa do trânsito em SP.
Depois de ter carro e ir para o sítio na terça à noite e trabalhar na quarta de manhã em Minas.
Depois de vender meu carro e ser sócio da BikeRio.

Depois de ter comido nos melhores restaurantes em São Paulo,
os piores no Rio e as deliciosas comidas do sertão da Bahia(sim, Bahia não é só Azeite de Dendê) em Minas.

Depois de engordar quinze quilos em São Paulo e Minas
E perder todos os quinze quilos no Rio.

Depois de ter ido às melhores baladas em SP.
Depois de ter vivido na Lapa no Rio.
Depois de ter as festas da vida no sítio em Rio Acima-MG.

Depois de não acreditar na marra dos cariocas,
a frieza dos paulista e a desconfiança dos mineiros.

Depois de amar São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Depois de regar amigos maravilhosos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas.

Depois de conquistar mulheres de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas.

Depois de escolher irmãos de coração em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas.

Depois de ter família em São Paulo e Minas.

Sorria, há menos um “baiano” para sua simpatia.
Sorria, há menos um “paraíba” na sua ciclovia.
Sorria, há menos uma nordestino fazendo “baianada” na sua via.

Depois de treze anos, estou voltando para Salvador, sorrindo, amando a família, a Bahia, os irmãos de coração e, principalmente, as mulheres baianas.

Sorria, venha ser feliz na Bahia.

carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

BANZO

julho 18, 2011

Na Bahia, já cheguei a andar na praia e apreciar a natureza.
Aqui, apreciam-se quilômetros e quilômetros de tráfego
como se fosse um fenômeno da natureza.

Em Salvador, já cheguei a bater papo com amigos de
muita coisa em comum.
Aqui, ouve-se muita coisa incomum.

Na Bahia, já cheguei a comer acarajé todo dia.
Aqui, todo dia é dia de pizza.

Em Salvador, já cheguei a ser amigo do rei.
Aqui, me chamam de “meu rei”.

Na Bahia, já cheguei a falar inglês.
Aqui, só baianês.

Em São Salvador, céu azul.
Aqui, cinza.

Na Bahia, coma abará.
Aqui, que tal trabalhar?

Em Salvador, já cheguei a deitar e dormir numa rede.
Aqui, trabalho na rede.

Em Salvador, já cheguei a morar com pai, mãe e amigo.
Mas é aqui que eles moram comigo.

Na Bahia, dois beijos no rosto.
Aqui, apenas um.

Matheus Tapioca

carinha_farinha
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Matheus Tapioca

QUINTO DOS INFERNOS

fevereiro 7, 2011


Se não existir vida após a morte, é muita sacanagem! Nem que seja o inferno, mas tem que existir. Todo mundo nasce com uma religião e toda religião acredita na tal da outra vida.

Você sabe desde criança que deve ser honesto, generoso, bom, humilde, fiel, leal para não arder nas chamas do tinhoso. Sofre anos, se sacrifica, se humilha, se fode a vida inteira para acabar morto, sem uma segunda vida?

E o espírito onde é que fica nessa história? Não existe “espríto”? E o que é esse sentimento que temos uns pelos outros, num piscar de olhos, num sorriso, num beijo, num amor? Essa coisa que tem nome, mas não tem significado?

Muitos acreditam que precisamos evoluir como espírito nesta vida, para chegar num estágio mais elevado na próxima encarnação.

Isso quer dizer que se vim pobre e bonzinho nessa, na próxima serei rico? Então vai ter rico pra carambra na minha outra vida. E se eu voltar peixe? Nada?

Tenho uma amiga (ateísta, que acredita que morreu, acabou e ponto) que me disse: “Se a pessoa morre acreditando que há vida após a morte, para ela, haverá outra vida.”. Achei bonito, até poético. Mas, eu, preciso saber AGORA se vai ter ou não essa merda.

Se eu vou mudar? Claro! Não vou sair matando todo mundo, mas vou deixar de engolir muito sapo. 2012 tá logo aí! Para que vou me estressar? Não vou evoluir mesmo. Vou pra Bahia, pra Tailândia, pro quinto dos infernos.

E lembrar que você passou os melhores vinte anos da sua vida numa sala de aula para evoluir. “Saber que é humano/Ridículo, limitado/Que só usa dez por cento/De sua cabeça animal…”. É por isso que eu acredito em vida após a morte.

E se não tiver? É muita sacanagem!
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica

TURISTA DE MIM MESMO

outubro 4, 2010

Que sou baiano não é novidade. Mas nem todo mundo sabe que sou branco, de olho azul e já fui loiro, porque agora sou careca. E é por isso que sempre me senti turista na minha cidade natal.

Quando vou apresentar o Pelourinho para algum amigo, neguinho vem falar pra mim: “Do you want cocaine?”, E em bom baianês respondo: “Vá pá porra! Não cheiro, nem fedo!”.

Latinha de cerveja no Porto da Barra os moleques vêm pedir para reciclar, falando “latinha” com sotaque “de gringo” (se é que isso existe).

E pegar ônibus? Já me vi cercado de negão fazendo o maior batuque na carroceria do buzu e foi o ritmo mais contagiante que já presenciei.

No carnaval então, a polícia sempre me defendeu pensando que eu era turista. Descia o sarrafo em quem chegasse perto. Até os blocos me deixam entrar na corda sem problema.

Mas também já fui muito roubado e tive a sorte de encontrar um trombadinha que, vendo minha cara de turista desolado, me deu três reais (do meu dinheiro) e disse: “Pra você voltar de ônibus!”.

Acho que é por esse mesmo motivo que sempre quis ser um negão, azul, grande, enorme, e tocar na Timbalada, todo pintado, com aquele sorriso branco, atrás de Carlinhos Brown.

Matheus Tapioca

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus

VOCÊ FALA COMO EU FALO?

fevereiro 22, 2010

Sem dúvida, o maior problema enfrentado por um baiano fora da Bahia é o seu jeito de falar. Quando a pessoa consegue entender o que a gente fala, somos mal interpretados.

Sempre acham que estamos sendo curtos e grossos. Mas não somos grosseiros, não estamos zangados, nem bravos com ninguém. Isso é apenas o jeito de falar.

Baiano não fala “Não sei”, diz “Sei lá!”. Chama de “Rapaz” e “Velho” qualquer pessoa, seja homem ou mulher. E apelida de “Sacana” o seu melhor amigo.

Baiano diz “Eu te amo” na primeira noite, e é verdade. Fala no diminutivo qualquer palavrinha. Para o baiano, loira, gaza, sarará, negra todas são “Morena”.  E não há palavra que mais faça parte do vocabulário baiano do que “porra“.

O problema é tão sério que o dicionário de baianês já é quase um best-seller. E baiano falando inglês? Você acha que eles largam o sotaque? Para conseguir entender um baiano em português já é difícil. Mas nada é mais incompreensível do que um mecânico de carro explicando o problema no motor.

O tão criticado atendimento baiano é só pelo jeito de falar. Baiano é sincero, objetivo. Sua turma viaja e pede quinze pizzas de uma vez, num restaurante de quintal em Morro de São Paulo, o dono da pizzaria fala: “Não. Nunca fiz quinze pizzas. Só faço dez.”.

Que mal há nisso? Foi só o jeito de falar. Se ele falasse “Desculpe, mas vendi tanta pizza hoje que a massa acabou. Só posso fazer dez.”, você iria reclamar?

A vendedora de sorvete tenta atender o turista:
– Eu queria um sorvete de limão.
– Não tem.
– De umbu?
– Não tenho.
– De acerola?
– O senhor já gosta de um azedinho, né não?

Viu só? A pobre da mulher foi vista como mal criada. Só pelo jeito de falar. Quando baiano acha algo estranho do colega, pergunta “Você é viado, é?”. Sendo o colega gay ou não.

Baiano tem mania de pegar nos outros enquanto fala. Isso não quer dizer que a pessoa está paquerando, ou é uma pessoa pegajosa . É só um jeito carinhoso de falar. E por causa disso, já ouvi muito “NÃO ME TOQUE!”, como se eu tivesse Ébola.

Desde que sai da Bahia, deixei de tocar nas pessoas, de olhar no olho, de falar “sei lá” e “Velho”, mas nunca vou deixar de chamar você de “Minha linda”.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

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Matheus Tapioca

CARNAVAL DE 1992

junho 15, 2009

Salvador, carnaval de mil novecentos e noventa e dois. Que eu me lembre, foi a primeira e única vez que fui para a avenida vestido de mulher. O figurino, o armário da senhora minha mãe: saia indiana, sutiã GG, maquiagem, purpurina, dois pares de meias para o sutiã GG e muito amor para dar.

Foi uma turma grande fazer o “make” na casa de um dos travestis. Não sei se você sabe, mas isso exige um certo teor alcoólico. Era um bando de homem bêbado, vestido de mulher, tentando se maquiar. Blush, sombra, lápis, pó e muita purpurina.

A nossa primeira vítima foi a primeira que passou: o Bobô, aquele ex-jogador que foi daquele ex-time chamado Bahia. Ele mesmo. Saiu completamente beijado com os piores batons do mercado e cheirando a perfume “espanta nigrinha” de tanto ser esfregado por nós.

Mexendo com Deus e o mundo, um carro de família (pai, mãe, dois filhos) buzina para a mulherada abrir caminho. Não deu outra: arrancamos o pai pela janela, o jogamos em cima do capô e passamos o mesmo corretivo que Bobô. A mulher ria, os filhos choravam e o pai se entregava.

Sair de mulher no carnaval é o passaporte para a alegria. Passa a mão na bunda do guarda, briga com patricinha, se alia aos gays e ainda consegue um beijo da gatinha que achou você um charme.

Saia indiana na altura do peito, sobre o sutiã GG, com dois pares de meias. Na cabeça um lenço, uma pena vermelha na orelha, batom vermelho “nos beiço”, purpurina pelo corpo e o perfume da faxineira. Puro glamour!

Até hoje não sei como cheguei em casa e quem eram os amigos que estavam comigo vestidos de mulher. Mas nunca vou esquecer que perdi as chaves e minha família inteira tinha viajado. Tentei empurrar a porta, em vão. Comecei a chutar, nada. Então parti para a agrestia: dei distância, corri e, com o calcanhar, dei a maior pancada na porta.

Ela continuou em pé, porém, como era oca, prendeu meu pé para dentro do apartamento. Meu pé entrou na porta e eu fiquei pendurado. Gritei o nome do meu vizinho até ele vir me ajudar: Seu Rozendo! SEU ROZENDO!!!

Agora imagine a expressão dele ao me ver pendurado na porta, vestido de mulher, às cinco horas da manhã. Seu Rozendo nunca mais me olhou do mesmo jeito.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
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