Posts Tagged ‘bar’

DIVERSÃO

agosto 4, 2016

Michel_Neuhaus_diversao

Mulher não suporta ver o homem se divertindo. Você conhece alguma mulher que incentive o namorado a ver seus amigos sem ela?  Que não reclame que quarta e domingo são dias sagrados para você assistir ao jogo do seu time?

Você bebe, ela fala que é para tomar “cuidado pra não virar alcoólatra, como aquele seu tio. É genético!”. Você fuma, ela tosse. Você dorme, ela te acorda. Você quer ver filme de menino, ela comédia romântica. E quando você está no bar, se divertindo com os amigos e amigas dela, fecha a cara, faz bico e pede pra ir embora.

Quando o homem está se divertindo no namoro, ela começa a falar em casamento. Quando começa a se divertir no casamento, ela só pensa em ficar grávida. Nascendo o rebento, ela quer que você acorde toda madrugada, sendo que só ela tem peito para dar. Uma judiação.

Se for para jogar alguma coisa com ela tem que ser tranca, uno ou ludo. Que homem se diverte jogando isso? É por isso que o homem mente. Diz que vai trabalhar até tarde, mas vai jogar poker com a turma. Me bata um abacate!

Até quando a gente é criança tem uma mulher gritando pra gente parar de se divertir e fazer a lição da escola. E desde menino acho que toda brincadeira não deve ter hora pra acabar.

E sabe por que as mulheres transam de olhos fechados? Só para não ver o homem se divertindo.
Matheus Tapioca

carinha_farinha
Texto: Matheus Tapioca
Ilustração: Michel Neuhaus

CONVERSA DE BAR

abril 28, 2016

O rapaz sendo complacente, sorriso fácil, todo romântico, ouvindo a mulher falar sem parar e fazendo de tudo para seduzir, quando ela solta:

– Não consigo me envolver com ninguém que não desce fundo, no âmago da tristeza e de si mesmo, assim como eu.

Ele pensou: vai querer falar de Freud na mesa do bar? Porra de âmago de si mesmo! Ele encerra a conversa:

– Mesmo você não sabendo o quanto o outro afunda, não seria bom ter uma pessoa na superfície para puxar você do fundo do poço? Garçom, a conta por favor.

carinha_farinhaMatheus Tapioca

BECO DO FRANÇA

maio 28, 2013

beco1

No Rio Vermelho, em Salvador, existe um beco estreito, entre o Boteco do França e uma igreja evangélica.

De um lado, o francês que abriu um bar. Do outro, no alto da igreja, literalmente em cima do bar, um néon verde escreve a frase com letras garrafais:
ARREPENDEI-VOS E CREDE NO EVANGÉLIO.

O beco que não tinha nome, virou o Beco do França.


carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

PAPEL RASGADO

março 29, 2010

Antônio estava num boteco moderninho, freqüentado por mulheres bonitas e que virou moda, inexplicavelmente, só por ser um autêntico boteco. Pé sujo mesmo, desses que você pede um kibe e o vendedor responde: “Não é kibe. É ovo! Sai mosca!”.

Voltando: Antônio estava no boteco com amigos e amigas, cerveja gelada na mesa, ele se levanta para ir ao toalete unisex (como em todo boteco), logo que acendeu a luz, seus olhos miraram o fundo da cesta de lixo, lá estava uma folha amarela de papel escrita à mão e totalmente rasgada e picada.

Antônio não conseguia tirar os olhos daquele papel rasgado. Letra de mulher. O que estaria escrito? De quem seria? Para quem? Litros saiam da sua bexiga e da sua imaginação. Ele catou cada pedacinho na cesta de lixo do sanitário daquele boteco moderninho. Colocou-os dentro do bolso e voltou para a mesa.

Antônio é alto, forte, traços grossos e olhos penetrantes. Estava namorando Mônica. Lindíssima, interessante, perspicaz. Com eles, na mesa, estavam duas amigas de Mônica e três amigos de Antônio, que não parava de pensar no papel rasgado.

Chegando em casa, Antônio não conseguiu dormir antes de montar o quebra-cabeça:

Oi Tom,

Torci muito pra você parar de pensar em sentir e começar a sentir de uma vez. Enquanto isso, para cada fundo de poço, milhares de motivos de perdão boiando, bóias de coração pra eu me agarrar.

Tivemos momentos mágicos, indescritíveis, delicados, perfeitos. Tão todos lá, gravados na minha memória. Você sempre mexeu de uma maneira muito intensa, muito forte, com meus sentimentos mais profundos, mais guardados. E eu sempre senti como se já te conhecesse há muito tempo e eu queria te conhecer mais e mais, sei que é clichê dizer isso, mas é muito real. A intimidade (em todos os níveis) que eu tenho com você transcende tudo. Não foi por acaso que a gente se encontrou nessa vida. Pra mim foi um encontro de almas, de corpos. Isso é raro, é especial.

Passei tempo demais angustiada comigo mesma, pensando nos ‘e se’, nos ‘será’, nos ‘porquês’.  Foram muitas madrugadas engasgada com os ‘eu te amo’ que estavam comigo e eram seus, mesmo que você não os quisesse. Eu fui muito magoada. Você oscilava entre ‘o namorado sensível’ e ‘o sacana infantil’. Eu tentei. Eu cedi. Eu precisava viver isso, da forma que fosse. E não me arrependo. Porque, apesar de tudo, é você que eu amo, é você que eu quero.

Eu ainda quero muito da vida. Quero viver histórias, amor, amizades de verdade. Não quero viver mais nada pela metade.

Um beijo,
Mônica

Antônio se calou como a carta havia feito naquele botequim e nunca mais deixou de ser inteiro com Mônica e em cada relação que viveu depois dela.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Ilustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

ÁGUA DURA

janeiro 4, 2010

Ontem fui no famoso bar da Brahma, na esquina da São João com a Ipiranga. Um cenário típico dos contos de Nelson Rodrigues. Inclusive as personagens. Tocaram nada mais, nada menos que os Demônios da Garoa.

O público, as personagens, era acima dos quarenta, alta burguesia, cada roupa… Do tempo do Nelson também. Mas foi lá que eu descobri que cachaça não faz distinção de raça, cor ou grana. E que todo bêbado passa pelas mesmas fases:

Fase 1: é o momento do brinde. Todos se acomodam, afrouxam as gravatas, pedem uma rodada de chope com colarinho. O brinde: “Que nossas mulheres nunca conheçam nossas esposas”. Todo mundo solta uma gargalhada, até a esposa soltar um fulminante olhar.

Fase 2: várias rodadas se passaram e as pessoas parecem ficar surdas, pois cada um quer falar mais alto que o outro. Acaba que todos falam ao mesmo tempo e cada um presta atenção apenas no que está dizendo. Vira um monólogo de várias personagens.

Fase 3: começa a depressão. Não existe mais superego. Nesta fase é bom nem ficar perto, porque todos, sem exceção, cospem enquanto falam. É uma chuva. A voz embola e a chuva continua. São nessas horas que eu vejo o quanto mulher sofre. Aqui também todo mundo é macho. Vai se separar da mulher, vai pedir demissão no emprego e mandar todo mundo para a puta que o pariu.

Fase 4: esta é pior. É a fase do choro. Cada um agarra o amigo mais próximo e começa a ladainha: “Eu te amo, cara. Eu te amo pra caralho!!! Você mora aqui ó!” (batendo no próprio peito). A pessoa não sabe se chora, fala ou cospe. É tudo junto. E só bêbado entende o que outro bêbado fala. É um dialeto.

A única diferença entre o pobre e o rico é a hora de pagar a conta. Os ricos nem olham e pagam, já os pobres arranjam mais um motivo para chorar. Mas nisso tudo há uma sabedoria popular:

“A humanidade está quatro doses atrasada.”

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca


%d blogueiros gostam disto: