O BUQUÊ

Sandra já estava noiva há quatro anos e pegar o buquê desta vez seria um sinal de que o casório ia engendrar. Regina se especializou na ciência empírica de pegar buquês: as destras jogam-no para o lado esquerdo e as canhotas, o inverso; as baixinhas jogam-no mais alto e com força, as altas, para baixo e sem força. No entanto, Regina nunca pegou um.

 

Mônica alcançou seu primeiro buquê aos 18 anos e hoje, aos 57, ainda não pegou um marido. Dani estava com trinta, morria de medo de ficar pra titia: dois noivos a deixaram na véspera do casamento, tendo que devolver todos os presentes sozinha.

 

Cristina ficava no meio da aglomeração de solteiras, sempre utilizando de golpes baixos para tentar conquistar o buquê ou o marido das amigas. Ângela precisava de muita sorte, não para a disputa, mas para arranjar um marido que apreciasse sua beleza.

 

A noiva havia prometido jogar o buquê na direção de Norma, sua melhor amiga, ainda virgem. Sabendo disso, Consuelo tratou de ficar ao lado de Norma. Dona Maria, 30 anos de casada, participava sempre deste ritual para se lembrar do quanto foi feliz quando agarrou o buquê e depois seu marido.

 

Bárbara tirou seu salto alto, pois sabia que pior do que não conseguir o prêmio era cair no meio do salão com seu vestido, que ainda seria usado em uma formatura da família. Camila fez o mesmo, pois nunca usava calcinha quando estava de longo, para não marcar sua bunda.

 

Priscila ouviu de uma cigana que as mulheres de capricórnio eram infelizes no amor e precisava provar o contrário. Iris não aguentava mais ver suas amigas casando, engravidando e ela pulando de namoro em namoro.

Mirian chorava duas vezes em todos os casamentos: quando a noiva entrava na igreja e quando não pegava o buquê. Armínia já tinha enxoval completo, apartamento próprio, o nome dos filhos, mas o marido ainda não.

E foi chegada a hora. Todas as mulheres se reuniram com um brilho especial nos olhos, sorrindo, sonhando com o objeto de desejo. Já entre os homens, alguns cruzavam os dedos e outros viravam de costas.

 

A noiva olhou para Norma, piscou o olho, virou-se, segurou o buquê com as duas mãos, deixando Regina confusa, e o arremessou. O buquê girou no ar, voou, voou, assim, feito o amor: passando de mão em mão, fugindo de umas, escapulindo de outras, até cair nas mãos de quem poderia aprender que não adianta tentar pegar o amor. Porque é ele quem nos conquista.
Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

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4 Respostas to “O BUQUÊ”

  1. Ana Cristina Says:

    “…até cair nas mãos de quem poderia aprender que não adianta tentar conquistar o amor. Porque é ele quem nos conquista.”

    Muito lindo, adorei!

  2. Verônica Says:

    Isso dá um meeeeeeeeedo… Fases da vida, né?

  3. andreia Says:

    O último parágrafo coroou o texto, muito divertido e que ganhou o tom da ternura com ele!
    To pensando que já tive uma amiga k era virgem aos 29 e eu vivia dizendo k iria tirar a virgindade dela( não nesse sentido…) e acabou k com 31 foi…, nos reunimos para comemorar as armações e o triunfo, ela acabou casando com 35 e eu não cheguei a tempo pro casamento!
    Cara, nunca fui num casamento, mas perder esse foi trash.
    AP

  4. edilene ruth Says:

    Muito bem escrito, adorei mais uma vez!!!
    Beijos, Edilene

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