A POMBA-GIRA

Isso é que dá querer morar numa cidade desconhecida e ir para festas estranhas com gente esquisita. Fui para um aniversário da sobrinha da vizinha de um amigo do amigo: Lucinda.

Chegando à festa, descobri a roubada em que me meti. Era um 15 anos, daqueles bem bregas e caretas, em que saudavam a chegada da mocidade. Só que, pela cara de Lucinda, percebi que ela era daquelas meninas que fazem sorrindo o que eu não faço chorando. Ah… Lucinda. Tão linda. Tão doce. Tão meiga. Tão rosa.

Conheci um parente aqui, outro ali. Valsa pra lá, valsa pra cá. Whisky pra dentro. E a festa chegava ao seu ponto máximo: o fim. Mas para simbolizar a data, a avó da moça faria um discurso.

A avó, até então sentada no sofá, levanta com a ajuda de dois netos. Uma neta lhe traz uma caixa de sapatos toda furada. O suspense tomou conta da sala. A senhora coloca a mão dentro da caixa, não consegue segurar direito e tira uma pomba branca. OOOOOOOHHHHHHHHH… Foi o espanto de todos. A mãe de Lucinda já estava com lágrimas no rosto.

A avó começa: “Neste dia tão importante para minha neta, eu pensei que não estaria viva para compartilhar este momento de tanta alegria. E estou aqui. Não muito forte, mas lúcida. Seguro esta pomba com dificuldade (a mão tremia, coitada…), mas o meu amor por Lucinda supera qualquer coisa. Queria desejar para minha neta, Lucinda, que a sua vida seja como a desta pomba. Que a partir de agora, ela voe alto, rumo ao sucesso.”.

Mãos se abrem, pomba lentamente começa a bater asas, vôo imponente surge, olhos acompanham o sentimento de liberdade. Tudo em câmera lenta: bocas se abrem, mãe chora compulsivamente, netinha não resiste, pai não resiste, eu não resisto e, de repente, subitamente, inesperadamente, arbitrariamente a pomba se joga contra o ventilador de teto e gira, gira, gira, caindo morta no chão.

Silêncio sepulcral toma conta da sala, todos olham para Lucinda, que saiu aos prantos, correndo para o quarto. Eu fui embora dando um passo largo para não pisar na pomba estendida no chão. Não fiquei para ver se a avó de Lucinda resistiu à pomba-gira.

Matheus Tapioca

Farinha de MandiocaToda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

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9 Respostas to “A POMBA-GIRA”

  1. Pedro Says:

    Perfeito…

  2. Andrea Says:

    Eu não poderia me divertir mais com um texto! :)

  3. Evora Says:

    Aff
    eu tb não resisti, ri até chorar, rs

  4. Alvaro Naddeo Says:

    Chorei de rir.
    Muito bom seu blog, Parabéns.
    Abrz

  5. Verônica Says:

    PQP… muito bom, mas se Lucinda fosse a própria pombagira tinha evitado isso, né não?

  6. Sra. Viegas Says:

    Brilhante essa tragicomédia!

  7. KelRegina Says:

    Ai, ai… Só podia dá merda! Adooooooooorei!

  8. Cleice Says:

    Nossa! Seria cômico se não fosse trágico… MAS eu ri mesmo assim.
    kkkkkkkkkkkkk

  9. Karla Sant'Anna Says:

    Ótimo texto! Tava ansiosa pra chegar logo no clímax pq sabia que ia dar xabu!! rsrs

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