A ALMA DO NEGÓCIO

A primeira coisa que impressionou Onório quando chegou a São Paulo foi a quantidade de gente. Em segundo lugar, o tamanho dos cemitérios. Ocupam quarteirões inteiros.

Onório ganhou de herança uma roça com algumas cabeças de boi, no interior de Alagoas. Vendeu tudo e partiu com o dinheiro no bolso e a família nos braços, decidido a abrir um negócio. Não teve dúvida. Comprou uma funerária no subúrbio da Capital. E a chamou de Funerária Descanse em Paz.

A partir daquele dia, Onório começava a olhar para as pessoas e imaginar que caixão lhe cairia bem. Qual madeira combinava, que alça, enfim, todos os acessórios que sua funerária colocava à disposição dos seus falecidos clientes.

A sogra ficaria sublime numa urna superluxo (estilo faraó), com visor grande, seis alças varãozinho dourada, seis chavetas, tampo móvel entalhados em alto relevo, mas sem Cristo. Sua esposa se orgulharia do marido, pensava Onório.

Moravam bem naquele bairro simples. Tinham conta no boteco de Grande, baiano, quarenta e cinco anos, que era perfeito para sua urna sextavada, alça varão, com seis caras de leão na cor dourada e quatro chavetas.

Íntimo também estava Onório no ramo. Não tinha carro para o transporte dos clientes, mas fechou uma parceria com uma funerária da Zona Leste e colocou sua esposa como necromaquiadora, maquiadora de defunto mesmo. Um diferencial da sua funerária.

Tudo pronto. Onório reabriu a funerária e, ao meio-dia, entrou seu primeiro cliente: Sr. Alcides, alto, magro, cinqüenta e seis anos, urna sextavada, com dois dragões, com cruz e filete na cor da madeira natural.

O falecido era o pai do Sr. Alcides. Onório mostrou todos os caixões, os acessórios e o cliente comprou o modelo mais caro. Onório ficou feliz e, em casa, comemorou seu primeiro dia de trabalho.

Não apareceu ninguém durante toda a semana. Preocupado, Onório foi ter com Grande. E o dono do bar lhe falou:
– Propaganda é a alma do negócio, Onório!
– Alma não precisa de caixão, Grande.

Onório matutou tudo aquilo que Grande lhe falou e na segunda seguinte, fez a promoção: “Compre um caixão e ganhe um infantil.”. Teve pouca procura. Uma senhora aproveitou a promoção e comprou um caixão para si e o infantil para seu cachorro que seria enterrado no mesmo jazigo que o dela.

Três meses depois, Onório fez uma parceria com o cemitério e distribuiu folhetos: “Agora você tem onde cair morto. Compre seu jazigo e ganhe o caixão.”. Esta deu resultado. Vendeu até uma urna estilo destavado, um metro e noventa de espaço interno para viajar confortavelmente, tampa e laterais do fundo onduladas.

Teve uma chacina no bar de Grande e foi o presente de Natal de Onório. Sete caixões de uma só vez. Deu para comprar o carro funerário. Pena que Grande foi junto, mas Onório não cobrou nada. Até porque tinha uma conta alta no bar.

Mas foi com o cartaz “Saia dessa para uma melhor. Vá de Funerária Descanse em Paz.” Que Onório vendeu a urna modelo à oitavada, totalmente esculturada em alto e baixo relevo, sobretampo com oito chavetas, Cristo banhado a ouro e visor de vidro.

Depois de um tempo, sem nenhum morto sair da funerária, Onório ficava preocupado e tentava criar novas promoções e nada da clientela voltar. A última foi um convênio com a Igreja Renascer que tinha 10% de desconto e distribuía um cartão com o convite: “Reserve seu espaço no céu! Funerária Descanse em Paz.”.

Não adiantou muito. Teve morto que pagou com cheque sem fundo. Traficante que queria pagar com maconha. Onório começou a fazer intriga para os maridos matarem suas mulheres. Inflamava as brigas sobre política, futebol e religião para ver se saia algum morto.

Onório fez Idelbrando matar a mulher, os filhos e se matar depois. Onório desejava uma chacina por mês. Era o jeito. Pois tava sem dinheiro para colocar gasolina no carro funerário. O que fez ele ter que empurrar o carro até o cemitério no último enterro.

Até que algumas pessoas começaram a morrer misteriosamente. Dona Selinha foi envenenada. Jonathan recebeu um tiro de bala perdida, onde não havia tiroteio. Alice caiu com o carro de uma ribanceira por falta de freio. Até quem queria se matar, Onório pedia que a pessoa pagasse adiantado e que o fizesse num lugar mais fácil de pegar o corpo.

A comunidade começou a desconfiar de Onório até que o lincharam. Onório, finalmente, pode descansar em paz num caixão modelo sextavado com visor e rodapé, caixa e tampa bordada confeccionada em madeira de Pinus. Fechamento com quatro chavetas, tampa três chavetas no visor e alças tipo varão dourado com conchas nas laterais. Uma beleza.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

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8 Respostas to “A ALMA DO NEGÓCIO”

  1. carina Says:

    Vc entende bem de caixões, hein seu Tapioca? Tem alguém da família no ramo?
    Massa o conto!

  2. di Says:

    alma n precisa de caixão eu gosto da idéia de pedras e lápide

  3. Mali Says:

    Engraçado que outro dia eu passei pela frente de uma funerária, e imaginei como deve ser complicado desejar a morte do outro para ganhar dinheiro…
    Um beijo e adorei o conto!

  4. jorge jr. Says:

    esse tá um biscoito fino!

  5. eduardo Says:

    boa meu menino!!!
    se curte uns onofres, onorios, onorários..
    conto de prima, parabéns!

  6. Gabi Says:

    Vc foi longe desta vez…
    Como é q entende tanto de caixão!?
    Adorei! Vou mandar prá minha mãe q curte estes assuntos.
    Bjos

  7. andreia Says:

    Caraca,gostei dos detalhes, coisa de especialista!rs…
    Será k existirão livros no futuro?Quero autógrafo!Nem k seja
    virtual.
    AP

  8. Ana Maruggi Says:

    Adorei seu blog, mas não sei seu nome. Nem aomenos o nome dos autores dos textos. Não sei inclusive se o dono do blog é o autor de tantos textos tão bons. Apareça por favor.
    Voltarei aqui mais vezes, e se me permite, vou utilizar um de seus contos em minha aula de criação de textos.
    Abraços

    Ana Maruggi
    São Paulo / SP

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