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CARTÃO POSTAL

agosto 5, 2016

Milena acordou sozinha e ficou de frente para o espelho tentando encontrar onde poderia ter algo de errado. Saiu para o trabalho sozinha. Em sua mesa havia fotos das viagens que fez sozinha.

Foi almoçar sozinha. Sempre sentava na praça de alimentação como se estivesse esperando alguém. Marcava trinta minutos, levantava e ia comprar o almoço para comer sozinha.

Para não se sentir tão sozinha em casa, Milena deixava sempre a TV ligada, pensava em voz alta, discutia consigo mesma só para não escutar o que seu coração dizia.

Milena também tinha o hábito de atender telefones públicos que tocam para ninguém, já que os dela não tocavam nunca. Milena não pensava em suicídio porque seu medo de morrer sozinha era muito, muito maior.

Milena chegou em casa e encontrou um cartão postal no chão. De Paris.  Surpresa e ansiosa virou a foto. Estava escrito apenas: “Je t’aime!”. Ela não fazia idéia de quem havia lhe enviado o postal.

Pensou em ser um engano, mas era seu o endereço. Tentou lembrar dos amigos que foram morar fora, nada. Quem viajou de férias, nada. Esta noite, Milena dormiu acompanhada.

Sem remetente nem destinatário, o destino do coração de Milena estava selado. Milena não acordou sozinha. Arrumou-se para o postal, se perfumou para o cartão e foi trabalhar. Colocou a foto da Torre Eiffel ao lado do seu computador. Naquele dia Milena não esperou por ninguém para almoçar.

Ninguém dorme acompanhada abraçando travesseiro. Dias se passaram, tudo correu como sempre, mas com um pouco mais de pimenta em seus almoços. Chegando em casa, encontrou mais um postal. Escrito, desta vez, “I love you.”. O cartão era de Londres.

No dia seguinte, comparou as caligrafias e não batiam. Seriam dois apaixonados? Um romântico francês e um charmoso inglês? Para quem não tinha ninguém, Milena estava muito bem servida. Se sentindo linda, a mais amada das mulheres, Milena voltou para casa excitadíssima. Foi sua primeira Ménage à trois.

Milena tirou as fotos das viagens que fez sozinha e agora colecionava cartões postais em sua mesa no escritório. Passou a sair para o trabalho como quem fosse ao primeiro encontro. Sempre perfumada e bem arrumada, seus colegas passaram a convidá-la para almoçar. Milena não almoçava mais sozinha.

Mas em nenhum deles encontrou o admirador secreto dos cartões postais. Ninguém era tão romântico como seu correspondente amoroso. Seu amor cresceu, correu mundo, foi a Paris, se expôs no Louvre e se jogou da Torre Eiffel.

E foi num sábado chuvoso de tédio que ela, do seu sofá em frente à TV, viu um cartão ser empurrado por baixo da sua porta. Pulou como num susto e abriu a porta de casa. Era o moço dos correios cruzando a rua. Seria o carteiro? Milena voltou para casa e pegou o cartão. Era de Atenas.

Ela decidiu cortar o cabelo, sair com as amigas do trabalho e se dar ao desfrute. Mas agora, seu coração já era souvenir de um só turista. E assim foi durante semanas, não paravam de chegar cartões postais dizendo apenas “Eu te amo” na língua das cidades onde seu amante passava.

Amsterdam, Moscou, Madri, Tókio. Enquanto ele dava a volta ao mundo, mais voltas dava o coração de Milena. Anônimo no amor, homônimo da dor. No sábado seguinte, chegou o penúltimo cartão postal. Era um enorme “EU TE AMO”, escrito em bom português, no verso de um postal de São Paulo.

Aquele seria o grande dia. Ela se preparou por inteira para o seu turista, como quem corre no escuro de braços abertos. Tudo pronto. Garrafa de vinho aberta, Milena deslumbrante, esperou sentada no sofá, em frente à porta, uma, duas, três horas, até que um cartão postal é empurrado por baixo de sua porta.

Aquela não era hora do carteiro entregar correspondência. Milena levantou, foi até o cartão e, com o coração na boca, leu: toc, toc!

carinha_farinha
Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca
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