Posts Tagged ‘namorada’

O ATIRADOR DE FACAS

outubro 21, 2016

Não entendo como algumas pessoas conseguem entrar na sua vida, viver coisas importantes ao seu lado, momentos inesquecíveis e, de repente, sair dela como num passe de mágica. Como quem desliga um interruptor.

Troca de linha telefônica, cancela a conta do e-mail, muda de endereço, de país, desaparece. Se dependesse de mim, o amor nunca se transformaria em “bom dia”.

Sempre achei que pé na bunda é sofrido para quem dá e pra quem recebe. Mas não acho que isso justifica deixar tudo que você viveu pra trás. Ou fingir que nunca existiu.

Foi com as suas ex-namoradas que você errou e não repete os mesmos erros com outra pessoa. Você entende que certas coisas não se dizem e outras que não podem deixar de ser ditas.

Você aprendeu a lidar com a TPM, como fazer para ela se sentir amada, protegida, segura e até onde sente mais prazer. Se hoje você é um namorado melhor, deve tudo às suas ex-namoradas.

Se acabou o namoro, por que tem que acabar toda a cumplicidade, sintonia, ligação, coisas em comum? Coisas que você não encontra em todo lugar, nem em todas as pessoas.

Outro dia vi um filme francês em que há o seguinte diálogo entre o casal que estava se separando. Ela pergunta pra ele:
– Nos beijamos? Nos despedimos?
Responde ele, resignado:
– Nos esquecemos.

Não consigo pensar, nem sentir desse jeito. Para mim, todas as pessoas com quem me envolvi são para sempre. Porque hoje, tenho certeza que sou uma pessoa melhor justamente por causa delas.

Matheus Tapioca

carinha_farinhaIlustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

VIVA VOZ

janeiro 25, 2010

Eu não gosto de telefone. Prefiro o olho no olho, o chope, a roda, a voz viva. Sempre achei que uma ligação não pode durar mais do que o tempo de se marcar o encontro. Chego a ser chato quando a ligação passa dos dez minutos. Tenho amigos que cronometram o tempo e se despedem antes disso.

Claro que para as pessoas mais distantes é preciso ter um pouco de paciência e falar mais. Quando solteiro, sempre me esforçava ao máximo na ligação com paqueras e namoradinhas. E fui forçado a fazer a despedida de duas horas:
– Desliga você primeiro.
– Não, você.
– Eu não, você.
– Os dois juntos.
– Certo:
– Um.
– Dois.
-Três.
– Você não desligou.
– Nem você…

E ai de você se desligar primeiro. Mas nada supera as intermináveis “DRs”.

Nunca me conformei com o tempo que as mulheres passam no telefone. E como elas gostam de ligar. Ligam o dia inteiro. Se você já namorou uma pessoa que tem muitas mulheres em casa, sabe que é um sacrifício completar a ligação. Sempre está ocupado.

Por que todo mundo que liga para o seu celular pergunta: “Onde você está?”. O que isso muda no rumo da prosa? O que isso agrega à ligação? Só no tempo e na conta do celular. O meu quase não toca. Tudo bem, sou mesmo insuportável no telefone.

Prefiro mensagem de SMS porque as pessoas são sucintas e objetivas na hora de escrever com o teclado do celular. Eu guardo assuntos para falar em casa, pois se eu ligasse toda hora que tivesse uma novidade, ficaria a noite toda calado.

Tem gente que passa trote. Tem gente que é engano. Tem gente que interrompe a refeição para atender ao telefone. Tem gente que conversa sentada no vaso e ainda dá descarga. Tem gente que fala de boca cheia, enquanto come. Tem gente que atende enquanto transa.

Telefone tem um péssimo defeito: não mostra a expressão de quem tá falando e de quem tá escutando. Ela pode estar vendo TV enquanto você chora. Com tédio enquanto você está na maior animação. Ou tá olhando pro decote da vizinha enquanto você se declara.

Mas telefone não é de todo mal. A ligação surpresa daquela pessoa especial. A chegada de uma nova mensagem que faz seu coração disparar. A ligação que você faz só para ouvir a voz do outro. Ou atravessar o Atlântico para saber como seu amigo está. Fora isso, odeio telefone.


Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca


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