Posts Tagged ‘fantasia’

MAMÃE GANSA

agosto 24, 2016

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Hoje eu vi um menino de rua folheando e admirando os desenhos de um livro infantil chamado “A Mamãe Gansa”, na entrada de um sebo. Fiquei ao lado dele e peguei outro livro para observar o menino discretamente. Descobri que sabia ler.

Ele usava calça jeans, tênis, uma camisa de moletom verde, meio suja, descuidada, e levava um isopor nas costas. O que fez aquela criança pegar aquele livro? A vida dele devia ser tão vazia de fantasia.

Tinha seus oito anos mal alimentados, ainda trabalhando, às nove horas da noite, parado em frente à livraria. A história daquela criança passou pelos meus olhos como num livro.

De repente, o menino fecha o livro e sai andando. Entrei na livraria, peguei “A Mamãe Gansa” e “O Mundo dos Bichos”, paguei e fui atrás do menino. Encontrei-o na esquina, em frente ao MacDonald’s, e entreguei os livros. Falei pra ele: “Um presente para você”.

Ele achou estranho. Olhou para dentro do saco, viu os livros, olhou para mim e não agradeceu. Acho que ele preferiria ganhar um dinheiro. Olhou para mim e disse: “Me dá um sorvete?”. Entramos na lanchonete e comprei uma casquinha.

Comecei a entrar numa paranóia de que o menino poderia chegar em casa com os livros, a mãe falaria que ele estava gastando o dinheiro com bobagem, pegaria o livro, rasgaria e jogaria fora.

Será que ele tinha mãe? Ele se interessou pela história da “Mamãe Gansa” justamente porque não tinha? Fiquei com medo, mas pensei que ele leria, estudaria, se tornaria um grande profissional e, quem sabe, ficaria rico.

Talvez ele estivesse procurando esperança. Esperança de tudo dar certo para ele e os irmãos, como os filhotes da gansa. Que ele não precisasse mais trabalhar e só empinar pipa, jogar bola, gude e brincar de Salada de Frutas com as meninas do bairro.

Perguntei seu nome: Serginho. Puxei assunto até chegar ao momento em que a vida mostra que tem um pouco de conto de fadas:

– O que você vende?

Ele, sem jeito, respondeu:

– Tapioca.

Sorri e ele, sem entender, foi embora tomando o soverte. E no meu conto de fadas, o moleque chegou em casa, leu os livros até pegar no sono e sonhou.
Matheus Tapioca

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Ilustração:
Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca

Matheus Tapioca

PERSONAGENS

novembro 28, 2010

Descobri recentemente que quando uma pessoa quer dizer que fulano é uma “figura”, em espanhol é um “personagem”. Achei a expressão muito apropriada. Porque, na realidade, todo mundo é um personagem de si mesmo.

Ninguém se mostra como realmente é. Sempre há uma máscara, um disfarce, um papel para representar. No trabalho somos um, em casa outro. Com a galera somos de um jeito e com a namorada de outro.

Você fala a língua de neném com seus amigos? Com a namorada sim. Você mostra tudo que posta nas redes sociais para seus pais? Tenho amigos que morrem de medo dos pais entrarem no Facebook e verem tudo o que eles publicam em fotos, vídeos e depoimentos.

Numa entrevista de emprego, usamos roupas para representar o papel do melhor profissional disponível no mercado. No início do namoro, somos o melhor partido da área. E para conhecer a família da namorada? Tudo ensaiado, lavado e politicamente correto.

Ninguém quer mostrar seus defeitos. Ninguém quer ser visto como egoísta, mesquinho, pequeno, chato, problemático, muito menos, mau. E todos nós temos todas essas características.

Até Alter ego a gente inventa. Um segundo eu, porém perfeito. Aquele cara condescendente, amigável, compreensivo, educado, fofo, um amor. Por isso ninguém entende quando aquela pessoa tão meiga é capaz de esquartejar a namorada.

Alguém me explica como podem existir pessoas que choram, esperneiam, dão chiliques, dormem na fila só porque seu popstar vai tocar num show para cem mil pessoas? Se fosse só para você, vá lá. É o papel de fã tão bem representado que merecia um Oscar.

Tem gente que se veste e se comporta como hippie, punk, clubber, intelectual, largado, moderninho, alternativo, subversivo, careta, rebelde. Há ainda pessoas que se fantasiam só para poderem ser o que realmente são.

Por que nem sempre somos o que gostaríamos de ser? Temos medo das pessoas (a platéia) não gostarem da gente? Ser você mesmo é tão ruim assim? Não acho.

Já reparou que quando estamos num lugar que nunca estivemos antes e não conhecemos ninguém, somos nós mesmos?

Sem essa de “Seja você mesmo”. Adoro os personagens, as figuras, os papéis. A vida fica muito mais divertida e as pessoas também. Afinal, personagens sempre são capazes de nos surpreender.

Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus


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