Archive for the ‘Amor’ Category

O ATIRADOR DE FACAS

outubro 21, 2016

Não entendo como algumas pessoas conseguem entrar na sua vida, viver coisas importantes ao seu lado, momentos inesquecíveis e, de repente, sair dela como num passe de mágica. Como quem desliga um interruptor.

Troca de linha telefônica, cancela a conta do e-mail, muda de endereço, de país, desaparece. Se dependesse de mim, o amor nunca se transformaria em “bom dia”.

Sempre achei que pé na bunda é sofrido para quem dá e pra quem recebe. Mas não acho que isso justifica deixar tudo que você viveu pra trás. Ou fingir que nunca existiu.

Foi com as suas ex-namoradas que você errou e não repete os mesmos erros com outra pessoa. Você entende que certas coisas não se dizem e outras que não podem deixar de ser ditas.

Você aprendeu a lidar com a TPM, como fazer para ela se sentir amada, protegida, segura e até onde sente mais prazer. Se hoje você é um namorado melhor, deve tudo às suas ex-namoradas.

Se acabou o namoro, por que tem que acabar toda a cumplicidade, sintonia, ligação, coisas em comum? Coisas que você não encontra em todo lugar, nem em todas as pessoas.

Outro dia vi um filme francês em que há o seguinte diálogo entre o casal que estava se separando. Ela pergunta pra ele:
– Nos beijamos? Nos despedimos?
Responde ele, resignado:
– Nos esquecemos.

Não consigo pensar, nem sentir desse jeito. Para mim, todas as pessoas com quem me envolvi são para sempre. Porque hoje, tenho certeza que sou uma pessoa melhor justamente por causa delas.

Matheus Tapioca

carinha_farinhaIlustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

ESPORTE RADICAL

agosto 1, 2016

Michel_Neuhaus_esporte_radical

Meu esporte radical sempre foi amar. Desbravando matas, escalando corpos, caindo de cabeça sem pára-quedas, pulando de bungee jump sem corda.

Já levitei sem usar balão, voei sem asa delta, enfrentei gelo sem prancha e já caí do alto, muito alto.

Cicatrizes não me faltam: das dores de cotovelo, no peito, fígado e mutilações, só não me doem os arranhões.

Viciado em adrenalina, descendo cachoeiras de endorfina, remando em corredeiras de serotonina.

Meu coração entregue como troféu, sem pódio de chegada, nem medalha dedicada.

Não há vencedores, nem competidores. Apenas amadores, em busca do empate.

Cada partida, uma esperança. Cada cansaço, um colo. E em cada chegada, um êxtase.Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
Texto: Matheus Tapioca

QUERO UM TRANSPLANTE DE CORAÇÃO

agosto 26, 2014


Meu coração não é um livro aberto. É um buraco aberto. Vazio que não se preenche. Vazio que não ecoa. Ausência onipresente.

Quero um transplante de coração. Ter um coração que não sente tanto, sofre tanto. Quero rasgar do meu peito este vazio.

Quero blindar meu coração. Essas batidas de surdo. Essa angústia aguda. Esse choro engolido.

Mas o sol abriu uma nova fresta nesse fundo sem poço. Não há pior luta do que a travada contra si mesmo.

A fresta da lojinha, agora, está sob nova direção, com descontos, promoções e ofertas exclusivos para mim.

carinha_farinha
Matheus Tapioca

SABEDORIA TAXISTA

novembro 13, 2013

Ele estava com duas lindas paulistas dentro de um táxi em Salvador. Soteropolitano, nordestino, cabra macho, disse brincando:
– Baiano não chora!

Ele olha para o taxista e quer uma confirmação da “baianidade nagô:
– Diga se não é, pai?
O taxista, do alto da sua sabedoria, respondeu:
– Baiano não chora. Soluça.

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AMAR

julho 30, 2013

Por que dói tanto?

carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

CARINHOSO

dezembro 22, 2012

Os baianos têm uma característica africana muito forte, que adoro, que é ser carinhoso. Pega nas pessoas, alisa, abraça, beija mulher, homem, bicha e cachorro, mas sem ser pegasojo. Isso é apenas uma demonstração de carinho, de afeto, de que gosta da pessoa. Não pegamos em quem não gostamos.

Porém, isso gera um tremendo ruído fora da Bahia. Ser carinhoso com as pessoas não significa que queremos beijar, namorar, trepar com elas. Não existe exemplo melhor do que todo baiano chamar TODAS as mulheres de “Minha linda”.

Claro que com nossas namoradas somos muito mais carinhosos, afinal ela nos deu a liberdade, a “ózadia”. Hoje sou uma pessoa muito mais comedida, porque morei em cidades com muito pouco de calor humano. Mas já passei por algumas situações por conta desse carinho todo.

Por tocar nas pessoas enquanto falava, um exército de mulheres sempre acharam que eu estava a fim delas, apaixonado, querendo pegar. Veja se pode?

Teve uma que quando toquei nela normal, sem querer pegar, beijar, trepar, nada, ela deu um grito: “Não me toque!”. Me senti com o vírus ébola.

Tenho uma amiga que chegou ao ponto de me ligar e dizer: “Tapioca, estou te ligando para dizer que NÃO VOU FICAR COM VOCÊ”. Você, mulher, já ligou para alguém para dizer isso? Eu respondi: “Deixe, pelo menos, eu tentar para você me dizer isso. Eu nem tentei”. Perco o beijo, mas não perco a piada.

Óbvio que algumas namoradas acham que estou mais apaixonado por elas, do que elas por mim. Tolinhas. Sou carinhoso assim com todas as namoradas. Algumas merecem mais que outras, igualmente óbvio.

Outras sempre falam frases desconexas, foras de questão, que o namorado vai buscá-la na balada, ou que o noivo está no banheiro, ou qualquer coisa para dizer que não podem ficar comigo ou não querem ficar comigo.

Confesso que nunca interpretei carinho como algo ruim. Pra mim, não há maldade num gesto de carinho. Me enganei?

Desejo a você um Natal carinhoso e um ano novo mais ainda!

Matheus Tapioca

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2013 Farinha de Mandioca 3.0kb

SOLANGE

dezembro 7, 2009

Solange era alta, morena, seios fartos e quadril largo. Moça direita, Solange batia ponto na Igreja Nossa Senhora da Conceição, numa pequena cidade de Minas Gerais, para assistir às missas do Padre Batista, que era perdidamente apaixonado por ela.

A mais bela fiel da sua igreja, Solange não sabia, mas todas as missas eram dedicadas a ela. No confessionário, Batista sentia o perfume de Solange, ouvia os pecados da amada de olhos fechados e perdoava todos. Dava duas “Ave Maria” e um “Pai Nosso”, para não gerar desconfiança.

Batista sempre a convidava para ler trechos da Bíblia no altar. Fazia questão da participação dela na quermesse e no coral. Mas quando colocava a hóstia na boca entreaberta de Solange, o padre entrava em êxtase.

Até que, um belo dia, o Padre Batista encontrou o nome de Solange na lista de casamento da sua igreja. Aquilo o deixou pálido como uma folha de papel. Sem chão, sentou para não cair.

Depois que leu o nome dela e o de Josino Eduardo, o padre Batista fez o que pode para destruir o noivado. Na confissão, perguntava se o noivo a tirava do bom caminho, se era direito, se tentava passar a mão em seu corpo.

Mas ouvia com um certo prazer os pecados que ela praticava com Josino, escondida dos pais, no portão de casa. Aquilo alimentava suas fantasias e a sua dor. Tormento que o consumia noites a fio.

Finalmente, o padre Batista casou Solange e Josino Eduardo. E, naquela noite, às três horas da manhã, o sino da igreja começou a soar, misteriosamente, acordando toda a cidade.

Todos os moradores saíram de suas casas e foram de pijamas para a porta da igreja saber o que estava acontecendo. Sem paciência de esperar, Adamastor bateu na porta da igreja, chamou pelo padre, bateu com mais força e a porta se abriu lentamente.

Procurando pelo padre, Adamastor entrou na igreja e foi até a torre do sino, que não parava de tocar, para falar com Batista. Chegando lá, Adamastor não viu ninguém, gritou o nome do padre e quando olhou para cima, viu o Padre Batista enforcado na corda do sino.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Ilustração: Michel Neuhaus
Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

ANOS DE ANÁLISE

agosto 31, 2009

Michel_Neuhaus_analise

Não há cena que me toque mais do que a de ver uma mulher chorando. Toda vez que vejo, sinto vontade de abraçá-la e ouvir seu desabafo. Não importa o motivo, muito menos se a conheço. Talvez, por isso, me tornei amigo de muitas mulheres.

Adquiri a infalível técnica de passar a mão nas costas para incentivar a chorar e a de colocar a mão na nuca para fazê-las pararem. Nem um bebê é capaz de me comover tanto. Seja ele de qualquer sexo.

Mas não há coisa pior pra mim do que ser o motivo desse choro. Já deixei de discordar, criticar, brigar com muitas mulheres só para não vê-las chorando.

Em todos os relacionamentos que terminei, sempre tentei usar as melhores palavras, as menos dolorosas. Mesmo sabendo que palavras não cicatrizam feridas.

Seja na rua, no trabalho, no carro ou apenas numa crise de TPM, sinto um aperto e começo a imaginar a razão, a história, o homem que deixou ela assim. A mulher pode não valer meio quilo de carne moída, mas meu coração dói por ela também.

Mas por que sinto isso? São anos de psicanálise para decifrar esse sentimento.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

TODA MOLHADA

julho 20, 2009

Michel_neuhaus_toda_molhada

Quando se separou, Aristides já estava velho demais para viver a solteirice. Nas baladas era o tio que ninguém dava bola, as cantadas eram sofríveis e os cortes dolorosos. Aristides é aquele tipo de pessoa que fica secando as mulheres que passam, no ônibus, no shopping, em qualquer lugar.

Como seu desempenho era péssimo, resolveu investir nas colegas de trabalho. Assim, acreditava ele, as mulheres poderiam vê-lo como uma pessoa interessante. Passou a almoçar com a turma do escritório, participava calorosamente de amigos secretos, festas de final de ano e não perdia um happy hour da firma.

Até o dia em que Lourdinha aceitou o convite do pessoal para o botequim. Era a chance de Aristides, que era apaixonado por ela. Lourdinha era desquitada, não era muito dada e nunca foi vista com namoradinho. Não participava das festas da empresa e só saia de casa para ir à igreja. Tinha a maior pose de recatada, mas, no fundo, todos desconfiavam da cara de santa de Lourdinha.

Conversa daqui, papinho pra lá, aos poucos todos iam embora, mas Aristides só iria para casa se fosse ao lado de Lourdinha. Os dois já estavam bêbados quando perceberam que estavam sozinhos na mesa do bar. Era a oportunidade que Aristides pediu a Deus: uma mulher linda, carente, solteira, bêbada e ele ao lado dela.

Ele começou a falar mais perto de Lourdinha, voz mansa, pronto para o bote, quando ela fala:
– Ai, Aristides, não aguento mais! Já tô toda molhada.

Aristides, sem acreditar, colocou sua mão sobre a de Lourdinha e não perdeu tempo:

– Então, vamos pra minha casa?
– Aristides, eu tô toda molhada de tanto que você cuspiu falando comigo.
Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus
Segunda é dia de Farinha. Vicie.

O DIA SEGUINTE

abril 16, 2009

 

Recebi o seguinte SMS de uma amiga: “P q dpois d 1 noite d sexo selvagem o homem não volta a ligar pra mulher? Agora me responda! PQ? PQ?”.

Querida amiga, ele não ligar no dia seguinte, não significa que ele nunca mais vai ligar. Às vezes até liga, mas é difícil. Há os que mandam flores, tomam café junto e os que deixam bilhetinho no travesseiro. Mas a grande maioria não liga.

Não serei ingênuo de relatar tudo sobre o universo masculino. Sou leal e fiel aos nossos princípios. Mas vou dar uma canja só para alentar o coração de minha triste amiga:

1) Você disse que foi uma noite selvagem, mas não havia bichos na cama não, né?

2) Ele vai ligar, mais dia, menos dia, ele vai ligar. Mas não ligue! Se ele estiver envolvido com outra mulher, for casado, noivo, comprometido talvez ele não ligue. O que será bom pra você que não quer ser a outra. Mas se quiser, ligue.

3) Pode ser medo de ser devorado feito canibal numa tribo indígena. Medo de conhecer um grande amor ou uma enorme desilusão.

4) Toda vez que o telefone toca você acha que é ele, mas não é: o cara pode ser um babaca que está, neste momento, ligando para todos os amigos dizendo que transou com você. E que você nem era tão gostosa assim.

5) Você fez tudo, ou quase tudo, e ele não ligou: ele sabe que se ligar, você vai achá-lo grudento, um porre. Mas como ele deve querer repetir a noite, não vai ligar no dia seguinte. Só para deixar você assim, nessa angústia, nessa insegurança, louca por ele.

6) Ele não achou a noite fantástica.

7) Ele não tá a fim de ligar.

8) Ele é gay.

Os homens são assim mesmo. E até defendo que sejam. O cara deu um duro retado, literalmente inclusive, para fisgar você. Aposto que você não é uma mulher fácil. Sua beleza é de afastar os covardes e desafiar os corajosos. Foi preciso se dar ao máximo naquela noite, para ser inesquecível.

Agora você quer que ele te ligue? Tá pedindo demais, não? Cadê aquela força que fez você resistir horas antes de consumar o ato? É por isso que eles não ligam no dia seguinte. Para deixar você louquinha por ele, mesmo que ele nunca mais ligue. E se isso acontecer, foi para tornar aquela noite perfeita e deixá-la para sempre como uma lembrança gostosa da sua vida. E acredito que não só na sua.Matheus Tapioca

 

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe.

Matheus Tapioca

 


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