LAR DOCE LAR

Pesquisa realizada na Europa revela que a maioria dos europeus mora em nove casas diferentes, em média, ao longo da sua vida. Eu já morei em dezessete lugares e com onze pessoas. Nove eram homens.

Já morei com a minha sogra, quatro judeus, um psiquiatra e modelo, dois baianos, dois cariocas, um economista, dois publicitários, de favor, alugado, emprestado, comprado, em pensão, na casa da madrinha, numa toca de onça, na rua, num bar. A única coisa que não me adapto é ao chão de banheiro molhado. Pode deixar aberta a tampa do vaso, apertar o tubo da pasta onde quiser, colocar o papel o higiênico saindo pra fora ou pra dentro.

O meu primeiro roommate, em Salvador, era um torcedor fanático do Santos. Vestido com o traje completo do clube (meião, calção, uma camisa no corpo e outra no ombro), ele tentava me expulsar de casa quando seu time jogava, dizendo que eu era pé frio. Um minuto após a sua súplica, seu time leva um gol aos 47 minutos do segundo tempo e perde a decisão do campeonato. Sai de casa aos tapas e quando voltei, havia um papel colado na porta do meu quarto com a cordial frase: FILHO DA PUTA!

A primeira e única vez que morei sozinho foi em São Paulo, num lugar que não havia espaço nem para mim: um quarto com uma mini cozinha e um banheiro que até as mulheres tinham que fazer xixi em pé. Meus vizinhos tinham namoradas ninfomaníacas e eu, solteiro, ouvia tudo numa cama single, pois uma de casal não cabia no quarto. Foi lá que aprendi que a solidão dói mais forte quando se tem vizinhos apaixonados.

Aqueles sons vão corroendo sua alma. Você não consegue dormir. Seja chorando, ligando a TV ou se masturbando. Estar sozinho numa cama de solteiro é como ficar ilhado. De duas uma: ou você fica com a cara na parede ou cai da cama. Depois de seis meses sendo corroído por aqueles sussurros, me mudei e a primeira compra, antes da geladeira e do fogão, foi a de um colchão de casal.

Fui dividir um apartamento duplex com meu grande amigo Michel. Era na rua Girassol, entre as ruas Purpurina e Rodésia, num prédio chamado Priscila. Só pelo endereço dá para perceber que todo mundo achava que éramos um casal. Principalmente o mestre de obras que fez o conserto de uma infiltração no apartamento. Vendo-me sair dos meus aposentos, perguntou se Michel estava e apontou para o meu quarto. Eu, indicando para o outro quarto, respondi:
– Michel não está no quarto DELE? Então não está.

No dia seguinte, o mestre de obras e os pedreiros chegaram e me viram usando camisa de futebol e várias revistas Playboy espalhadas pela casa. Coçava o saco, mostrava as fotos das mulheres nuas, usava palavras de baixo calão, coçava o saco novamente, mostrava as mulheres e fazia aquele som que elas adoram ouvir quando passam em frente a uma obra: shiiiiii. Ou seja, um macho bruto. Porque macho que é macho é bruto.

Depois do duplex, fui morar no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, com um amigo mineiro. Desconfiado, ele era mais calado que os móveis do seu apartamento. Eu, incomodado com o seu silêncio, perguntei se havia algo de errado e ele respondeu:
– Você quer que um mineiro fale tanto quanto um baiano?

Me mudei para o Jardim Botânico, dividindo um apartamento com mais um judeu que todo dia me dava um abraço e um beijo quando eu chegava do trabalho. E, até onde sei, não é gay. Ele saiu do apartamento depois de um ano e entrou, no seu lugar, outro judeu que só confirmou a teoria de que os judeus são econômicos, mão de vaca mesmo.

Um dia, chegando do trabalho, me deparo com a porta de casa arrombada. Arrastão? Vargas preso? Mais uma mulher querendo entrar à força? Quando piso no apartamento, sinto meu pé molhar, olho pra baixo e vejo um palmo de água no apartamento inteiro. O apartamento pegou fogo. Foi a gota d’água.

Voltei para São Paulo decidido a nunca mais dividir apartamento com homens. Fui morar com uma mulher. E foi com ela que casei e divido uma vida há mais de quatro anos. Hoje, dezessete casas depois, tendo morado com nove homens, uma sensação de encantamento me surpreende toda vez que vejo uma calcinha pendurada no box do meu banheiro.

Matheus Tapioca

carinha_farinha

Toda segunda uma nova crônica. Acompanhe!

Matheus Tapioca

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10 Respostas to “LAR DOCE LAR”

  1. Rúbia Says:

    aaahhhh que coisa mais linda! um homem encantado com as calcinhas no chuveiro. te entendo bem, já morei com mais de 30 pessoas diferentes, e não há nada melhor hj do que encontrar a toalha molhada na cama. pelo menos esse roomate é meu. ;)

  2. Andréa Says:

    Indo para a morada de número 8, depois de morar com primos, amigos de tios, desconhecidos, com um vira-lata que adotei e me conquistou, com um ex-chefe (e era só chefe mesmo), com uma amiga, com a família de uma amiga, com inúmeros tours na casa de amigos entre essas indas e vindas do nordeste e sudeste, ainda não achei uma cueca no chão do quarto. Mas algo me diz que deve ser uma experiência interessante.

  3. @cristalk Says:

    Sabe aquela crônica que a gente gostaria de ter escrito? Encontrei algumas aqui. Adorei!

  4. wlady6 Says:

    putz… o foda é saber que essa calcinha é da minha irmã. Eu sabia que devia ter parado de ler a crônica antes do final.

  5. ana fay Says:

    opa!!! tem uma parte aí que eu acompanhei de perto. E de fato o mineiro psiquiatra modelo existe e é um dos caras mais engraçados do mundo. Não precisa nem falar porque só com o seu jeito de olhar a risada já é garantida. E o primeiro judeu carioca, do abraço e do beijo depois do dia dificil de trabalho é sim pessoa além de carinhosa, generosa. E não é gay. ;) um beijo, querido. Me fez muito bem ler o que você escreveu, trazendo de volta esse tempo que ficou lá há 4 anos atrás. Essa época tá guardada lá, na memória, mas o que dali se criou continua muito e para a vida toda. Diferente, mas tão grande quanto. Um beijo eila minha jagua pra você!

  6. Mary Matos Says:

    Dei muita rizada hoje com você, também já tive algumas experiências morando com amigas!! só tem uma coisa eu como mulher tenho vergonha se saber que alumas mulheres deixam calcinha no banheiro, de resto eu aturo tudo!! beijos!!

  7. di Says:

    chorei

  8. di Says:

    (bosta)

  9. Mali Says:

    Ahhhhhhhh eu simplesmente amei!
    Eu quero que o meu marido escreva um (quase) igual!!
    Um beijo enorme

  10. andreia Says:

    Muito divertido imaginar essas paradas, passei por umas bem insanas tbm…
    E pra “variar” um finalzinho com uma pegada bem coraçãozinho e olhinhos apaixonados! Amei!
    AP

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