Posts Tagged ‘salvador’

AXÉ MUSIC

março 19, 2014

Tira o pé do chão. O assunto é Axé Music, sim. Não tenho um único disco de Axé, nem de Ivetão, Claudia Leitte e não sou chicleteiro. Mas não há música melhor para pular na pipoca do carnaval de Salvador, atrás de um trio elétrico, do que Axé Music e Música Afro.

Já pulei na pipoca do Rappa, Moby e outras bandas que não são de axé. Nunca vi nada mais morno do que água para banho de neném. Não sei se sabem tocar em cima de um trio, afinal é preciso saber comandar um trio.

Nunca gostei de Daniela Mercury até pegar uma pipoca dela, às quatro da manhã, embaixo de um toró, com seis mil pessoas pulando atrás. Foi até capa de jornal. E eu estava lá.

Repare numa característica única da Axé Music: a alegria. As músicas falam de dor de cotovelo, de corno, morte, carro velho, água mineral, até “O Emílio quer comer acarajé, mas Sara baiana não quer dar…”. Seja qual for o tema, é cantado com alegria, com festa, sem depressão, nem tristeza.

E nunca, nunca confunda Axé Music com Pagode. Pagote paulista é romântico. Na Bahia é esculhambação: É o Tchan, “Lepo-Lepo”, Harmonia do Samba, Psirico, etc. Isso não é Axé. “São os nossos pagodes, variantes do samba de roda, pai de todos os sambas.”

Vou tomar a liberdade de utilizar o excelente manual básico do amigo Pablo Maurutto, sobre a música baiana (texto completo aqui):

“4 – O Axé é uma linha musical pouco precisa, que se remete à música moderna no carnaval da Bahia e, em geral, utiliza a base do Samba-Reggae, do Frevo e do Ijexá, mas que já tem variações enormes, graças ao poder de inventividade dos baianos;

5 – Para quem gosta de rotular, pode carimbar como Axé algumas músicas, como: Haja Amor (Luiz Caldas), Zanzibar (A Cor do Som), Filha da Chiquita Bacana (Caetano), A Luz de Tieta (Caetano), Meia Lua Inteira (Carlinhos Brown), Sol de Oslo (Gil);

6 – Tom Zé, João Gilberto, Moraes Moreira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Raul Seixas, são compositores. E acreditem, SÃO BAIANOS!!! O que nos faz pensar que a música que fazem é “música baiana”;

(…)

8 – O Carnaval da Bahia também tem marchinhas, fanfarras, sambas, afoxés e até rock. Tem para todos os gostos. Inclusive um circuito no Pelourinho que é espetacular! E isso, antes mesmo dos cariocas redescobrirem as ruas, no carnaval que estava restrito às mesmices das escolas de Samba;

9 – Prefiro mil Rebolations a um Bonde do Tigrão.

Não fiquem com ciúmes. Um dia, talvez, Gilberto Gil e Bono Vox também poderão cantar, juntos, uma música de Bob Marley nas calçadas da magnífica Copacabana. Quem sabe.”

Na palma da mão!

carinha_farinha
Matheus Tapioca

LADO A

dezembro 16, 2013

mari_farol

Tapioca voltou para a Bahia em promoção. Saindo dor forno como um turista alemão.

Fresquinha: mesmo depois de passar dois meses de férias, ser assaltado, viver o caos do transporte público da cidade e de torrar a careca nas quatro estações soteropolitanas: verão, verão, verão e verão.

Salgada: o mar quente, o suor negro, peixe vermelho frito, o pôr do sol no mar. Para muitos, voltar para Salvador foi um passo para trás. Para mim, um pé fincado na areia da praia. E eu digo: “Não vá se fuder, não, fique ai!” (uma das melhores expressões da baianidade nagô).

Doce: o azul, a preguiça, o acolhimento, o abraço de bebê, comida de casa, família, o horizonte, a voz de Gal, o lindo sorriso branco do negro. É gente falando “massa”. Doce como uma rede após o almoço. Doce feito beiju de Tapioca.

carinha_farinha
Doce ou salgada?

BECO DO FRANÇA

maio 28, 2013

beco1

No Rio Vermelho, em Salvador, existe um beco estreito, entre o Boteco do França e uma igreja evangélica.

De um lado, o francês que abriu um bar. Do outro, no alto da igreja, literalmente em cima do bar, um néon verde escreve a frase com letras garrafais:
ARREPENDEI-VOS E CREDE NO EVANGÉLIO.

O beco que não tinha nome, virou o Beco do França.


carinha_farinha
Por Matheus Tapioca

BANZO

julho 18, 2011

Na Bahia, já cheguei a andar na praia e apreciar a natureza.
Aqui, apreciam-se quilômetros e quilômetros de tráfego
como se fosse um fenômeno da natureza.

Em Salvador, já cheguei a bater papo com amigos de
muita coisa em comum.
Aqui, ouve-se muita coisa incomum.

Na Bahia, já cheguei a comer acarajé todo dia.
Aqui, todo dia é dia de pizza.

Em Salvador, já cheguei a ser amigo do rei.
Aqui, me chamam de “meu rei”.

Na Bahia, já cheguei a falar inglês.
Aqui, só baianês.

Em São Salvador, céu azul.
Aqui, cinza.

Na Bahia, coma abará.
Aqui, que tal trabalhar?

Em Salvador, já cheguei a deitar e dormir numa rede.
Aqui, trabalho na rede.

Em Salvador, já cheguei a morar com pai, mãe e amigo.
Mas é aqui que eles moram comigo.

Na Bahia, dois beijos no rosto.
Aqui, apenas um.

Matheus Tapioca

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Matheus Tapioca

TURISTA DE MIM MESMO

outubro 4, 2010

Que sou baiano não é novidade. Mas nem todo mundo sabe que sou branco, de olho azul e já fui loiro, porque agora sou careca. E é por isso que sempre me senti turista na minha cidade natal.

Quando vou apresentar o Pelourinho para algum amigo, neguinho vem falar pra mim: “Do you want cocaine?”, E em bom baianês respondo: “Vá pá porra! Não cheiro, nem fedo!”.

Latinha de cerveja no Porto da Barra os moleques vêm pedir para reciclar, falando “latinha” com sotaque “de gringo” (se é que isso existe).

E pegar ônibus? Já me vi cercado de negão fazendo o maior batuque na carroceria do buzu e foi o ritmo mais contagiante que já presenciei.

No carnaval então, a polícia sempre me defendeu pensando que eu era turista. Descia o sarrafo em quem chegasse perto. Até os blocos me deixam entrar na corda sem problema.

Mas também já fui muito roubado e tive a sorte de encontrar um trombadinha que, vendo minha cara de turista desolado, me deu três reais (do meu dinheiro) e disse: “Pra você voltar de ônibus!”.

Acho que é por esse mesmo motivo que sempre quis ser um negão, azul, grande, enorme, e tocar na Timbalada, todo pintado, com aquele sorriso branco, atrás de Carlinhos Brown.

Matheus Tapioca

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Ilustração: Michel Neuhaus

CARNAVAL DE 1992

junho 15, 2009

Salvador, carnaval de mil novecentos e noventa e dois. Que eu me lembre, foi a primeira e única vez que fui para a avenida vestido de mulher. O figurino, o armário da senhora minha mãe: saia indiana, sutiã GG, maquiagem, purpurina, dois pares de meias para o sutiã GG e muito amor para dar.

Foi uma turma grande fazer o “make” na casa de um dos travestis. Não sei se você sabe, mas isso exige um certo teor alcoólico. Era um bando de homem bêbado, vestido de mulher, tentando se maquiar. Blush, sombra, lápis, pó e muita purpurina.

A nossa primeira vítima foi a primeira que passou: o Bobô, aquele ex-jogador que foi daquele ex-time chamado Bahia. Ele mesmo. Saiu completamente beijado com os piores batons do mercado e cheirando a perfume “espanta nigrinha” de tanto ser esfregado por nós.

Mexendo com Deus e o mundo, um carro de família (pai, mãe, dois filhos) buzina para a mulherada abrir caminho. Não deu outra: arrancamos o pai pela janela, o jogamos em cima do capô e passamos o mesmo corretivo que Bobô. A mulher ria, os filhos choravam e o pai se entregava.

Sair de mulher no carnaval é o passaporte para a alegria. Passa a mão na bunda do guarda, briga com patricinha, se alia aos gays e ainda consegue um beijo da gatinha que achou você um charme.

Saia indiana na altura do peito, sobre o sutiã GG, com dois pares de meias. Na cabeça um lenço, uma pena vermelha na orelha, batom vermelho “nos beiço”, purpurina pelo corpo e o perfume da faxineira. Puro glamour!

Até hoje não sei como cheguei em casa e quem eram os amigos que estavam comigo vestidos de mulher. Mas nunca vou esquecer que perdi as chaves e minha família inteira tinha viajado. Tentei empurrar a porta, em vão. Comecei a chutar, nada. Então parti para a agrestia: dei distância, corri e, com o calcanhar, dei a maior pancada na porta.

Ela continuou em pé, porém, como era oca, prendeu meu pé para dentro do apartamento. Meu pé entrou na porta e eu fiquei pendurado. Gritei o nome do meu vizinho até ele vir me ajudar: Seu Rozendo! SEU ROZENDO!!!

Agora imagine a expressão dele ao me ver pendurado na porta, vestido de mulher, às cinco horas da manhã. Seu Rozendo nunca mais me olhou do mesmo jeito.
Matheus Tapioca

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